ASSUNTOS
CULTURAIS

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| ENTREVISTA
COM ANGÉLICA DE MORARES
Angélica
de Moraes, crítica de arte e jornalista,
foi convidada pela organização da
Trienal de Yokohama para conhecer a Trienal de Yokohama,
junto com outros dezesseis jornalistas conceituados
de arte da Coréia, China, Singapura, Índia,
Austrália, Estados Unidos, França,
Inglaterra, Alemanha e Itália. O Aquarela
colheu suas impressões.
1.
Uma das características da Trienal é
a grande concentração da participação
dos artistas asiáticos, o que é difícil
ver em outras exposição do mesmo porte.
O que você achou da produção
asiática, em geral?
Muito interessante porque ao mesmo tempo que vemos
uma produção típica, vinculada
à própria cultura do país,
vemos também artistas contemporâneos
que saem do tradicional para dialogar dentro de
uma estrutura de linguagem de arte contemporânea.
A presença da arte asiática é
muito grande, talvez um terço da exposição.
Gostei do trabalho do nippo-vietnamita Jun Nguyen-Hatsushiba,
extremamente poético. Ele filmou os carregadores
de riquixás dentro do mar, que fica tudo
claro com a luz que penetra, deslumbrante. Foi muito
bom para ter contato com a arte asiática,
que conheço muito pouco. Não imaginava
que em Viet Nam existisse uma arte tão de
ponta, utilizando meios tão atuais.
Tinha muito artista ocidental bom também,
de primeiro nível. Poderia se achar que o
Japão se fechou sobre ele mesmo e sobre a
arte asiática, mas a Trienal de Yokohama
trouxe artistas ocidentais importantíssimos,
como a Marina Abramovic, Pipiloti Rist, etc.
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| 2.
E da produção japonesa, o que achou?
Quais os artistas japoneses que mais lhe marcaram?
Achei muito interessante a escolha que os curadores
fizeram , pegaram duas artistas que são importantes
em qualquer latitude do planeta, como por exemplo
Yoko Ono e Yayoi Kusama. A Yoko Ono, por exemplo,
fazia parte, nos anos 60, de um movimento fundamental
na arte contemporânea japonesa chamado Mono-ha,
ligada a uma concisão de elementos, no ocidente
traduzido como arte minimum. Mas o Mono-ha não
é apenas minimum porque é ligado à
filosofia zen, de aproximação com
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a natureza, que o ocidental
não tem. É por isso que a presença
da Yoko Ono lembrou esse fio de história.
Ao mesmo tempo, a Yayoi Kusama, me parece possuir
um diálogo mais estreito com a cultura
ocidental porque ela se identifica muito com o
pop e as linguagens dos anos 60. Ela foi uma artista
ativíssima em Nova York. No Trienal de
Yokohama ela está muito bem representada,
numa sala muito boa, logo na entrada, que está
com um trabalho que desperta as mais diversas
reações. Ela colocou bolas prateadas
no chão e espelhos, que cria um infinito.
As crianças deitam e rolam com aquelas
bolas, no chão. E o trabalho da Yoko Ono
é muito poético, um vagão
de trem, feito em Berlim e transportado para Yokohama,
que ganha um ar surrealista.
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3.
Segundo você, existe uma característica
própria da arte japonesa contemporânea
ou segue as mesmas tendências ocidentais?
Sempre existe um substrato profundamente japonês
até porque sua cultura é muito forte.
Mesmo que ela utilize linguagens e meios contemporâneos,
ela está expressando a sua própria
cultura ou está se ligando em questões
internacionais mas com o olhar oriental. Essa
poesia delicada que se encontra na literatura
japonesa, a ligação com a natureza,
o dizer o máximo com poucas palavras, isso
tem muito a ver com a arte que se faz hoje no
japão.
4.
Que artista japonês gostaria de estar apresentando
no Brasil, levando em consideração
a receptividade do público brasileiro?
Vários artistas japoneses já são
conhecidos no Brasil, mas acho que é da maior
importância fazer uma exposição
individual da Yayoi Kusama.
5.
Como o espaço foi aproveitado? Você
achou que o local, cidade de Yokohama, era apropriado
para tal exposição?
Perfeita a escolha de Yokohama porque ela cumpre
um papel simbólico. Foi lá onde os
portos japoneses começaram a se abrir perante
o Ocidente. O interessante é que foi utilizado
um pavilhão completamente contemporâneo
, o Pacific Yokohama Exibition Hall e um prédio
antigo que é o Red Brick Ware House, um galpão
feito de tijolos vermelhos e ferragens antigas muito
bonitas. As obras estavam em perfeita harmonia com
a arquitetura do prédio. O contraste entre
o antigo e o novo é muito interessante. Também
teve outras exposições paralelas espalhadas
pela cidade. A curadoria colegiada de quatro curadores
foi muito boa para dar uma visão bem diversificada.
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| 6.
Você ficou satisfeita com a representação
latino-americana?
Não. Entende-se perfeitamente que pelo fato
de ser uma primeira Trienal, era necessário
ter um compromisso com a região. A arte asiática
tinha que ter uma presença grande, caso contrário
não justificava. Acho que a curadoria teve
pouco tempo de fazer uma pesquisa mais apurada da
arte latino-americana, especificamente a brasileira.
O Brasil estava muito aquém da riqueza da
sua arte contemporânea. A participação
foi apenas de um artista, o Eduardo Kac. Apesar
de ser um ótimo
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artista,
ele reside nos Estados Unidos e muito pouco circula
pelo Brasil. Tem um série de artistas contemporâneos
brasileiros que poderiam estar perfeitamente nesta
Trienal mas não estiveram, acredito, por
falta de pesquisa. Certamente numa segunda ou
terceira vez, é evidente que vai haver
uma aproximação maior. A escolha
do Eduardo Kac foi uma escolha pontual e boa,
mas faltou outras pessoas.
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7.
Hoje, várias bienais e trienais estão
sendo realizadas no mundo inteiro. Qual seria, segundo
sua impressão, a contribuição
do Trienal de Yokohama dentro desse emanharado de
exposições internacionais?
Acho que existe exatamente a contribuição
sobre a arte produzida na Ásia. A Trienal de
Yokohama vai criar um parâmetro de avaliação
daqueles artistas que a curadoria de outros bienais
vai passar a prestar atenção. Não
só terá uma influência na região
mas também provocará uma leitura na
arte asiática pelo sistema ocidental de bienais.
Acho que a Trienal de Yokohama pode exercer um papel
semelhante ao da Bienal de São Paulo, que foi
de exercer uma influência sobre a arte latino-americana.
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| 8.
Que aspectos da Trienal acha que devem ser melhorados
para a próxima vez?
Pelo própio desenvolvimento da Trienal ela
vai necessariamente chegar nisso, mas é preciso
uma cobertura mais pontual e aprofundada em determinadas
produções internacionais importantes,
como é o caso da brasileira. A presença
americana era pequena também, mas acho que
foi uma questão estratégica porque
elas ganham muita visibilidade em outras exposições.
Talvez tenha sido necessário reduzir o peso.
É uma escolha e acho mais interessante, nesse
caso, mostrar a arte oriental. Contudo, apesar de
ser importante mostrar a arte |
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oriental,
no momento em que houver uma intenção
de fazer uma coisa mais abrangente, certamente
o Brasil merece ser enfocado.
9.
Você acha que o Trienal de Yokohama tem
cacife para ser um das mais importantes exposições
internacionais de arte contemporânea?
Tem, não só pelos artistas que estão
produzindo na atualidade mas também como
pelos curadores responsáveis.
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