Pieter Tjabbes
A minha
viagem para o Japão, a convite da Fundação
Japão tinha como objetivo principal conhecer a história
da arte do Japão, mas ao mesmo tempo tive a oportunidade
de atender a cerimônia de abertura da Trienal de Yokohama.
A Trienal de Yokohama tem um papel importante porque permite
a arte contemporânea japonesa possuir um diálogo
em nível internacional. A Bienal de São Paulo
também, em 1951, tinha o mesmo intuito de inserir
o Brasil no circuito internacional de artes, incentivada
também por motivos econômicos. É lógico
que a Trienal aproveitou as experiências de todas
as bienais e trienais do mundo e optou por um modelo que
obteve muito sucesso, que é o da Documenta de Kassel.
O sistema é de convidar os artistas para confeccionar
as obras e a organização se responsabiliza
em todos os aspectos, até financeiramente. A curadoria
tem portanto o domínio total da exposição.
Já a Bienal de Veneza conta com a representação
dos países nacionais onde estes são autônomos
na curadoria, mas também têm que pagar por
esta honra. A vantagem é que a participação
nacional gera menos custo para a organização
do evento. A Fundação Bienal de São
Paulo adotou, nas últimas três edições,
o sistema da organização geral da exposição.
Onde antes 90% da participação era dos países
nacionais, hoje é de apenas 30%.
Quando trata-se de uma primeira experiência de uma
mega-exposição, por ser novidade, consegue-se
mobilizar muita gente e entidades. A prova será a
segunda edição. Nesse sentido a Fundação
Japão, que foi a força mobilizadora desse
evento, deveria continuar com a mesma função,
até porque uma trienal tão jovem não
teria a capacidade de caminhar sozinha. Comparando com as
bienais de São Paulo, notei que a Trienal de Yokohama
tende a ser muito grande. Precisa-se pensar se o público
consegue absorver tudo e acredito que uma menor dimensão
seria tão interessante quanto. Acho também
que é preciso refletir sobre a montagem da exposição.
As obras ficaram pequenas em relação ao espaço.
Talvez para uma próxima exposição possa
dar mais atenção a esses aspectos.
Angélica de Moraes
Espero
compartilhar com vocês nesta palestra a experiência
da minha visita ao Japão e em especial sobre a
Trienal de Yokohama.
Vale lembrar que a presença do Japão nas
grandes mostras internacionais de arte começou
em 1951, exatamente com o envio de artistas para a primeira
Bienal de São Paulo. No ano seguinte, o Japão
estaria presente na Bienal de Veneza, onde teria seu próprio
pavilhão a partir de 1956. A primeira mostra internacional
de arte realizada no Japão foi em Tóquio,
em 1952, com a participação de seis países
(Brasil, França, Estados Unidos, Itália,
Inglaterra e Bélgica). Inicialmente denominada
International Art Exhibition Japan, depois ficaria conhecida
como Bienal de Tokyo. A Bienal de Tokyo de 1970 foi a
plataforma de lançamento do Mono-Ha, movimento
de arte que significou a contribuição japonesa
para o aprofundamento filosófico e estético
de dois movimentos artísticos ocidentais: a arte
conceitual e o minimalismo.
Inaugurada oficialmente dia 2 de setembro, a primeira
Trienal de Yokohama colocou a questão: valeria
a pena o esforço japonês de voltar a promover,
agora em escala maior, uma mostra periódica de
arte contemporânea? O circuito internacional já
não estaria excessivamente povoado de bienais e
trienais? De fato, a grande mostra, seja por suas escolhas,
seja pela estratégia que definiu seu foco, provou,
nos diversos espaços que ocupou na cidade de Yokohama
para exibir 109 artistas de 38 países (um terço
deles asiáticos), que é uma alternativa
com chances reais de se consolidar como a melhor interlocução
entre a arte oriental e a ocidental. Para administrá-la,
foi formado um numeroso comitê organizador internacional
que contou com a participação de 53 pessoas,
entre críticos, professores universitários
e nomes de relevo na direção ou curadoria
de instituições culturais e museus. Ou seja,
esse comitê oxigenou desde o início a proposta
da trienal, colocando-a como resultado desse amplo fórum
de especialistas. Espera-se que o modelo possa servir
de exemplo para instituições, como a Bienal
de São Paulo, que há muito necessitam tornar
seus rumos e escolhas mais representativos da comunidade
cultural em que atuam.
Com o sub-título de Mega-wave: Towards a New Synthesis,
a Trienal de Yokohama acertou ao fixar-se especialmente
na análise e contextualização da
produção artística asiática.
Para promover a interlocução com o ocidente,
não faltaram obras importantes de grandes astros
como Pipilotti Rist (Suiça), Felix Gonzalez-Torres
(Cuba), Pierre Huyghe (França), Stelarc (Austrália)
e William Kentridge (África do Sul). O Brasil está
representado pelo multimeios Eduardo Kac. Uma presença
de qualidade, sem dúvida, mas insuficiente. A arte
brasileira já desfruta de uma visibilidade e consistência
no circuito mundial que merece, para as próximas
edições da trienal, uma observação
mais atenta dos curadores.
Helmut Batista
Minha
bolsa para o Japão foi ligada à uma pesquisa
sobre os grupos alternativos de arte contemporânea
no país, a maneira como atuam e sobrevivem.
Ao longo dos 6 meses viagei o Japão do norte ao
sul e visitei os centros de arte contemporânea,
museus, ateliês e instituições. Como
no Brasil, o meio da arte contemporânea no Japão
é bastante frágil e sua precaridade se reflete
nas escassas publicações do gênero
ou até a pouca quantidade de bolsas que financiariam
um projeto artístico. Mesmo assim, encontrei alguns
exemplos curiosos. Um deles é o grupo chamado Comando
N composto de 9 artistas que considero um dos mais ativos
na questão da procura de meios alternativos de
produção de arte, sem estarem ligados ao
mercado e que ao mesmo tempo conseguiram manter uma atividade
direcionada em vários âmbitos. Esse grupo
conseguiu, nos últimos anos realizar vários
projetos de inserção urbana interessantes.
Por exemplo, no bairro de Akihabara, onde há uma
concentração de lojas de produtos eletro-eletrônicos,
os artistas conseguiram convencê-las a ocupar as
lojas durante um certo período. Assim, o cliente
que iria comprar uma televisão estaria assistindo
uma projeção de vídeo de arte em
vez de um programa convencional.
Outro projeto bastante curioso é o do Nakamura
Nobuo, um dos 4 curadores da Trienal de Yokohama e que
também direciona o Centro de Arte Contemporânea
de Kita-Kyushu. Ele conseguiu convencer a prefeitura local
de, em vez de construir um museu, investir na produção
das obras dos artistas, alugando um espaço dentro
da universidade. Através disso conseguiu produzir
trabalhos de grandes artistas internacionais, que permanecem
de 1 a 2 meses em Kita-Kyushu e produzem um trabalho local.
É produzido também um catálogo das
atividades dos artistas com a verba inicialmente destinada
para a construção do museu.
Oscar Satio Oiwa
Meu
trabalho no Japão se desenvolve fora do circuito
oficial japonês, com entidades do circuito particular
como galerias, editoras, firmas de construção
e outras. Tenho também feito trabalhos envolvendo
a comunidade e o espaço público. Para a
mesa redonda de hoje, preparei especialmente um vídeo.
(n.e.: apresentação em vídeo das
obras de Oscar)
"Urban Fossil" 1995: primeiro projeto que fiz
em espaço público, em Tachikawa, Tokyo,
numa área de planejamento urbano. Participaram
desse projeto, que foi o maior projeto em espaço
público da Ásia, mais de 90 artistas de
40 países.
"Scarecrow Project" 2000: um projeto de esculturas
de pessoas que trabalham no campo para o Echigo-Tsumari
Art Triennial (província de Niigata). Tirei fotos,
fiz o perfil da pessoa para cortar em chapas de alumínio
e instalei no meio da plantação como se
fosse um espantalho.
"Tree Portraits" 1997: instalação
em frente ao Museu de Arte de Yokohama, para a Bienal
de Escultura de Yokohama. Este trabalho que ganhou o primeiro
prêmio. A idéia era de fazer a escultura
das ávores no seu exato perfil, na mesma dimensão.
Daqui a 30, 40 anos, a população local irá
sentir o passar do tempo comparando a árvore crescida
com a escultura.
"Terreno Baldio F.C." 2001: projeto feito para
o Estadio de Shizuoka, em Shizuoka. Ela tem 5 metros de
altura por 4.5 de largura feita em concreto armado e pintado
de amarelo, servindo como portal de entrada nesse estadio
que vai sediar a Copa do mundo esse ano. Quando era garoto
jogava futebol na rua e ficava as marcas de bola nas paredes.
Peguei essa idéia e fiz uma imensa parede com furos,
como se fosse uma marca de bola.
"Feijão" 2000: é um feijão
que ao mesmo tempo é um canivete suíço,
feito de chapa de aço inox, instalado num parque
em volta de um estágio de futebol em Sapporo. O
Japão possui boa tecnologia para realizar esse
tipo de projeto. Desenhei a planta e os cortes foram feitos
a lazer.
Hospital em construção: situando-se na província
de Akita, é um projeto de integração
da arte no complexo hospitalar desde a fase inicial da
construção. Conta com pinturas e projetos
de arquitetura interna meus.
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