ASSUNTOS CULTURAIS

  
  Visões Sobre a Arte Contemporânea Japonesa

A Fundação Japão promoveu, no último dia 28 de novembro, a mesa redonda "Visões sobre a Arte Contemporânea Japonesa". O evento discutiu as diversas visões sobre a arte contemporânea no Japão atual e a importância dos mega-eventos internacionais de arte, como a Trienal de Yokohama, encerrada no dia 11 de novembro de 2001 e a Bienal Internacional de São Paulo, que se realiza a partir de março deste ano.
Foram convidados Pieter Tjabbes, gerente de eventos internacionais da Fundação Bienal de São Paulo; Angélica de Moraes, crítica de arte e curadora; Helmut Batista, organizador da Capacete Entretenimentos, núcleo de arte contemporânea sediado no Rio de Janeiro e o artista plástico brasileiro atuante em Tokyo Oscar Satio Oiwa. Aquarela apresenta a seus leitores parte dos depoimentos.


Pieter Tjabbes

A minha viagem para o Japão, a convite da Fundação Japão tinha como objetivo principal conhecer a história da arte do Japão, mas ao mesmo tempo tive a oportunidade de atender a cerimônia de abertura da Trienal de Yokohama.
A Trienal de Yokohama tem um papel importante porque permite a arte contemporânea japonesa possuir um diálogo em nível internacional. A Bienal de São Paulo também, em 1951, tinha o mesmo intuito de inserir o Brasil no circuito internacional de artes, incentivada também por motivos econômicos. É lógico que a Trienal aproveitou as experiências de todas as bienais e trienais do mundo e optou por um modelo que obteve muito sucesso, que é o da Documenta de Kassel. O sistema é de convidar os artistas para confeccionar as obras e a organização se responsabiliza em todos os aspectos, até financeiramente. A curadoria tem portanto o domínio total da exposição. Já a Bienal de Veneza conta com a representação dos países nacionais onde estes são autônomos na curadoria, mas também têm que pagar por esta honra. A vantagem é que a participação nacional gera menos custo para a organização do evento. A Fundação Bienal de São Paulo adotou, nas últimas três edições, o sistema da organização geral da exposição. Onde antes 90% da participação era dos países nacionais, hoje é de apenas 30%.
Quando trata-se de uma primeira experiência de uma mega-exposição, por ser novidade, consegue-se mobilizar muita gente e entidades. A prova será a segunda edição. Nesse sentido a Fundação Japão, que foi a força mobilizadora desse evento, deveria continuar com a mesma função, até porque uma trienal tão jovem não teria a capacidade de caminhar sozinha. Comparando com as bienais de São Paulo, notei que a Trienal de Yokohama tende a ser muito grande. Precisa-se pensar se o público consegue absorver tudo e acredito que uma menor dimensão seria tão interessante quanto. Acho também que é preciso refletir sobre a montagem da exposição. As obras ficaram pequenas em relação ao espaço. Talvez para uma próxima exposição possa dar mais atenção a esses aspectos.

Angélica de Moraes

Espero compartilhar com vocês nesta palestra a experiência da minha visita ao Japão e em especial sobre a Trienal de Yokohama.
Vale lembrar que a presença do Japão nas grandes mostras internacionais de arte começou em 1951, exatamente com o envio de artistas para a primeira Bienal de São Paulo. No ano seguinte, o Japão estaria presente na Bienal de Veneza, onde teria seu próprio pavilhão a partir de 1956. A primeira mostra internacional de arte realizada no Japão foi em Tóquio, em 1952, com a participação de seis países (Brasil, França, Estados Unidos, Itália, Inglaterra e Bélgica). Inicialmente denominada International Art Exhibition Japan, depois ficaria conhecida como Bienal de Tokyo. A Bienal de Tokyo de 1970 foi a plataforma de lançamento do Mono-Ha, movimento de arte que significou a contribuição japonesa para o aprofundamento filosófico e estético de dois movimentos artísticos ocidentais: a arte conceitual e o minimalismo.
Inaugurada oficialmente dia 2 de setembro, a primeira Trienal de Yokohama colocou a questão: valeria a pena o esforço japonês de voltar a promover, agora em escala maior, uma mostra periódica de arte contemporânea? O circuito internacional já não estaria excessivamente povoado de bienais e trienais? De fato, a grande mostra, seja por suas escolhas, seja pela estratégia que definiu seu foco, provou, nos diversos espaços que ocupou na cidade de Yokohama para exibir 109 artistas de 38 países (um terço deles asiáticos), que é uma alternativa com chances reais de se consolidar como a melhor interlocução entre a arte oriental e a ocidental. Para administrá-la, foi formado um numeroso comitê organizador internacional que contou com a participação de 53 pessoas, entre críticos, professores universitários e nomes de relevo na direção ou curadoria de instituições culturais e museus. Ou seja, esse comitê oxigenou desde o início a proposta da trienal, colocando-a como resultado desse amplo fórum de especialistas. Espera-se que o modelo possa servir de exemplo para instituições, como a Bienal de São Paulo, que há muito necessitam tornar seus rumos e escolhas mais representativos da comunidade cultural em que atuam.
Com o sub-título de Mega-wave: Towards a New Synthesis, a Trienal de Yokohama acertou ao fixar-se especialmente na análise e contextualização da produção artística asiática. Para promover a interlocução com o ocidente, não faltaram obras importantes de grandes astros como Pipilotti Rist (Suiça), Felix Gonzalez-Torres (Cuba), Pierre Huyghe (França), Stelarc (Austrália) e William Kentridge (África do Sul). O Brasil está representado pelo multimeios Eduardo Kac. Uma presença de qualidade, sem dúvida, mas insuficiente. A arte brasileira já desfruta de uma visibilidade e consistência no circuito mundial que merece, para as próximas edições da trienal, uma observação mais atenta dos curadores.

Helmut Batista

Minha bolsa para o Japão foi ligada à uma pesquisa sobre os grupos alternativos de arte contemporânea no país, a maneira como atuam e sobrevivem.
Ao longo dos 6 meses viagei o Japão do norte ao sul e visitei os centros de arte contemporânea, museus, ateliês e instituições. Como no Brasil, o meio da arte contemporânea no Japão é bastante frágil e sua precaridade se reflete nas escassas publicações do gênero ou até a pouca quantidade de bolsas que financiariam um projeto artístico. Mesmo assim, encontrei alguns exemplos curiosos. Um deles é o grupo chamado Comando N composto de 9 artistas que considero um dos mais ativos na questão da procura de meios alternativos de produção de arte, sem estarem ligados ao mercado e que ao mesmo tempo conseguiram manter uma atividade direcionada em vários âmbitos. Esse grupo conseguiu, nos últimos anos realizar vários projetos de inserção urbana interessantes. Por exemplo, no bairro de Akihabara, onde há uma concentração de lojas de produtos eletro-eletrônicos, os artistas conseguiram convencê-las a ocupar as lojas durante um certo período. Assim, o cliente que iria comprar uma televisão estaria assistindo uma projeção de vídeo de arte em vez de um programa convencional.
Outro projeto bastante curioso é o do Nakamura Nobuo, um dos 4 curadores da Trienal de Yokohama e que também direciona o Centro de Arte Contemporânea de Kita-Kyushu. Ele conseguiu convencer a prefeitura local de, em vez de construir um museu, investir na produção das obras dos artistas, alugando um espaço dentro da universidade. Através disso conseguiu produzir trabalhos de grandes artistas internacionais, que permanecem de 1 a 2 meses em Kita-Kyushu e produzem um trabalho local. É produzido também um catálogo das atividades dos artistas com a verba inicialmente destinada para a construção do museu.

Oscar Satio Oiwa

Meu trabalho no Japão se desenvolve fora do circuito oficial japonês, com entidades do circuito particular como galerias, editoras, firmas de construção e outras. Tenho também feito trabalhos envolvendo a comunidade e o espaço público. Para a mesa redonda de hoje, preparei especialmente um vídeo. (n.e.: apresentação em vídeo das obras de Oscar)
"Urban Fossil" 1995: primeiro projeto que fiz em espaço público, em Tachikawa, Tokyo, numa área de planejamento urbano. Participaram desse projeto, que foi o maior projeto em espaço público da Ásia, mais de 90 artistas de 40 países.
"Scarecrow Project" 2000: um projeto de esculturas de pessoas que trabalham no campo para o Echigo-Tsumari Art Triennial (província de Niigata). Tirei fotos, fiz o perfil da pessoa para cortar em chapas de alumínio e instalei no meio da plantação como se fosse um espantalho.
"Tree Portraits" 1997: instalação em frente ao Museu de Arte de Yokohama, para a Bienal de Escultura de Yokohama. Este trabalho que ganhou o primeiro prêmio. A idéia era de fazer a escultura das ávores no seu exato perfil, na mesma dimensão. Daqui a 30, 40 anos, a população local irá sentir o passar do tempo comparando a árvore crescida com a escultura.
"Terreno Baldio F.C." 2001: projeto feito para o Estadio de Shizuoka, em Shizuoka. Ela tem 5 metros de altura por 4.5 de largura feita em concreto armado e pintado de amarelo, servindo como portal de entrada nesse estadio que vai sediar a Copa do mundo esse ano. Quando era garoto jogava futebol na rua e ficava as marcas de bola nas paredes. Peguei essa idéia e fiz uma imensa parede com furos, como se fosse uma marca de bola.
"Feijão" 2000: é um feijão que ao mesmo tempo é um canivete suíço, feito de chapa de aço inox, instalado num parque em volta de um estágio de futebol em Sapporo. O Japão possui boa tecnologia para realizar esse tipo de projeto. Desenhei a planta e os cortes foram feitos a lazer.
Hospital em construção: situando-se na província de Akita, é um projeto de integração da arte no complexo hospitalar desde a fase inicial da construção. Conta com pinturas e projetos de arquitetura interna meus.

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