ASSUNTOS CULTURAIS

  
  A EXPERIÊNCIA DA PARTICIPAÇÃO NA BIENAL DE SÃO PAULO

Yamawaki Kazuo recebeu o convite da Fundação Japão para ser o comissário da representação japonesa na 25ª Bienal Internacional de São Paulo. Yamawaki selecionou o artista, acompanhou a instalação da obra no local e dedicou-se à divulgação do evento no Japão.

É notável a presença da colônia japonesa em São Paulo. Os artistas de descendência japonesa no Brasil têm participação considerável no cenário artístico do país, fazendo com que o interesse destes pela Bienal seja grande. Entre inúmeras exposições internacionais existentes, a Bienal de São Paulo é a única que possibilita o diálogo com os nossos conterrâneos, não se limitando ao público ocidental.


O tema da 25ª Bienal de São Paulo é "Iconografias Metropolitanas". A modernidade trouxe vários benefícios para a humanidade, mas também abriga problemas, obrigando-a estabelecer novos valores. A cidade, local de concentração dos benefícios e malefícios da modernidade, traiu as expectativas do Homem que acreditou atingir a utopia através dela, revelando-se ser degradante para o espírito. Onde procurar a utopia, então?

Baseando-me nesse pensamento, escolhi como representante nacional da Bienal o artista Tsuchiya Kimio, cujo tema de trabalho é a busca do locus espiritual do indivíduo contemporâneo. O artista resgatou os relógios que utilizou no trabalho anterior cujo tema era a memória, recriando dessa vez um lugar que tenha o poder de cura dos habitantes da metrópole. Sua obra consiste numa instalação que ocupa uma sala inteira, coberta de entulhos de concreto. No meio, uma instalação de aço que comporta um corredor que leva a um recinto com 400 relógios funcionando todos ao mesmo tempo. Esse quarto é o local onde podemos recuperar a individualidade que se perde no caos da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que nos oferece a possibilidade de dar o salto para o futuro, graças à força da criatividade.

Essa obra, entitulada "Após o Dilúvio", é composta de entulhos colhidos numa casa recém-demolida na cidade de São Paulo. O cheiro da tinta permite ainda sentir a vida dos habitantes. Mas simboliza também a degradação do espírito da população da metrópole. A palavra "dilúvio" pode ser associada aos desastres ocorridos recentemente nas metrópoles, mas lembra-nos também a memória associada ao mito, representado pela "Arca de Noé". Joseph Campbell afirma que a humanidade pode experimentar a felicidade espiritual máxima através do mito. Entretanto, para a sociedade contemporânea onde a religião é ausente, a arte talvez seja o mediador entre o mito e nossa alma.

Yamawaki Kazuo

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