O tema da 25ª Bienal de São Paulo é
"Iconografias Metropolitanas". A modernidade
trouxe vários benefícios para a humanidade,
mas também abriga problemas, obrigando-a estabelecer
novos valores. A cidade, local de concentração
dos benefícios e malefícios da modernidade,
traiu as expectativas do Homem que acreditou atingir a
utopia através dela, revelando-se ser degradante
para o espírito. Onde procurar a utopia, então?
Baseando-me nesse pensamento, escolhi como representante
nacional da Bienal o artista Tsuchiya Kimio, cujo tema
de trabalho é a busca do locus espiritual do indivíduo
contemporâneo. O artista resgatou os relógios
que utilizou no trabalho anterior cujo tema era a memória,
recriando dessa vez um lugar que tenha o poder de cura
dos habitantes da metrópole. Sua obra consiste
numa instalação que ocupa uma sala inteira,
coberta de entulhos de concreto. No meio, uma instalação
de aço que comporta um corredor que leva a um recinto
com 400 relógios funcionando todos ao mesmo tempo.
Esse quarto é o local onde podemos recuperar a
individualidade que se perde no caos da vida cotidiana,
ao mesmo tempo em que nos oferece a possibilidade de dar
o salto para o futuro, graças à força
da criatividade.
Essa obra, entitulada "Após o Dilúvio",
é composta de entulhos colhidos numa casa recém-demolida
na cidade de São Paulo. O cheiro da tinta permite
ainda sentir a vida dos habitantes. Mas simboliza também
a degradação do espírito da população
da metrópole. A palavra "dilúvio"
pode ser associada aos desastres ocorridos recentemente
nas metrópoles, mas lembra-nos também a
memória associada ao mito, representado pela "Arca
de Noé". Joseph Campbell afirma que a humanidade
pode experimentar a felicidade espiritual máxima
através do mito. Entretanto, para a sociedade contemporânea
onde a religião é ausente, a arte talvez
seja o mediador entre o mito e nossa alma.
Yamawaki Kazuo |