Por
Michiko Okano
Assessora cultural senior da Fundação Japão
e doutoranda em Comunicação e Semiótica da PUC-
SP
Tivemos em São Paulo a rara oportunidade de presenciar workshops de
alguns dos mais importantes nomes de Butô da atualidade: Yoshito Ohno,
Akira Kasai e Yukio Waguri, realizados respectivamente nos dias 3, 4
e 6 de setembro de 2003, no SESC Consolação. Yoshito é filho de Kazuo
Ohno e é um dos discípulos mais antigos de Hijikata. Kasai, um dos pioneiros
nesta arte, estudou com ambos os mestres Ohno e Hijikata na década de
sessenta, tornando-se independente após alguns anos. Waguri é discípulo
de Hijikata de uma geração posterior. Produziu um CD-ROM denominado
Buto-Kaden, disponível na biblioteca da Fundação Japão para consultas,
onde apresenta a seleção de 88 títulos de Buto-fu (partituras de Butô)
do mestre Hijikata.
fotos:Naritada Takahashi
WORKSHOP DE YOSHITO OHNO
Realizado no dia 03 de setembro (quarta feira)
O workshop de Yoshito é prenhe de metáforas e valoriza
a simplicidade e a essência dos movimentos na dança.
A origem do Butô
Yoshito começa a explicar a origem do uso da palavra butô
mostrando o álbum fotográfico de Willian Klein: foi
em 1959, quando ele e Hijikata dançam a peça Kinjiki
(Cores Proibidas). Explica que o butô pode ser compreendido
como uma dança que nasceu do complexo do corpo japonês.
Hijikata reunia pessoas com histórias corporais diversas como
body builder, boxeador e bailarino clássico para fazer experiências
não os pintava de branco. Anos após, Hijikata trilha
um outro caminho tentando apagar os músculos, motivo pelo qual
se pintava o corpo de branco. Esta cor representava também
a morte pelo ritual japonês de vestirem os mortos de branco.
Yoshito chama a atenção da necessidade de se conquistar
a essência e não se restringir à cópia
da forma, como apenas pintar o corpo de branco e imitar certos modelos
de butô. Cita a frase de Hijikata: o corpo é um receptáculo
onde se deposita um objeto técnico chamado desejo.
Mostra o livro de Hijikata, Yameru Maihime (A princesa dançarina
doente) que esclarece ser intraduzível para a outra língua,
mesmo porque é incompreensível mesmo em japonês.
No apêndice há texto de um crítico onde cita a
frase do filósofo Nietzsche “Assim Falava Zaratustra”
que diz lembrar Hijikata. “Para saltitar, é necessário
antes de mais nada aprender a ficar de pé, andar, correr e
torcer. “ E assim, Yoshito começa a prática do
workshop baseada nestes quatro movimentos.
O olho
Mostra uma foto do livro de ator de teatro Nô, Hisao Kunieda,
realizando hanami, isto é, um passeio que se faz com o propósito
de apreciar as flores. Hisao está feliz sob as cerejeiras.
Aí Yoshito nos revela que Hisao é cego e que ele aprecia
as flores com o olhar interno.
Yoshito mostra uma rosa e explica que Hijikata a segurava na mão
esquerda, enquanto que Kazuo, na mão direita. Para o primeiro,
era um eixo de conexão entre o céu e a terra enquanto
que para Kazuo era uma extensão do olho. Ensina Yoshito que
o olho pode estar em qualquer parte do corpo e deve abrí-los:
na ponta dos dedos, na sola do pé e nas costas. Para Kazuo,
o olho se situava na flor.
Movimento descendente/ Movimentos pequenos
Yoshito diz que a arquitetura japonesa, baseada em construções
de madeira, deteriora com o passar do tempo, caindo em última
instância. Os japoneses sentam no tatami, num movimento descendente.
A dança butô incorpora esses elementos, sendo dominante
o vetor descendente.
O artista pediu num determinado momento para os participantes fazerem
movimentos minúsculos, menores que podiam fazer. Explica que
desta maneira, quando se faz os movimentos grandes, eles se tornam
realmente grandes.
Perseverança
Perseverança foi outra palavra chave citada por Yoshito, contando
a sua experiência de visitar um orquidário nipo-brasileiro
onde encontrou orquídeas que consumia 7 anos de cuidados diários
para se ter a primeira flor. Ele dá a indicação
de que se vc. treinar com uma flor durante sete anos, seu corpo internalizará
este objeto de tal maneira que passará a existir na sua dança,
mesmo ausente.
Experienciar os materiais
Yoshito presenteia todos com uma toalhinha típica japonesa
e desenvolve com ela, o movimento de torção. “Torcer
a toalha como se fosse espremer a última gota da vida.”
dizia Yoshito. Posteriormente, ele passa a experiência para
o corpo, pedindo para torcer a parte superior do corpo juntamente
com o movimento de torção da toalha.
O mestre tem um outro material a presentear: o papel artesanal japonês
semitransparente chamado washi. Ele explica a importância e
a presença do papel no cotidiano dos japoneses, sendo parte
construtiva da porta de correr, cuja função é
filtrar os raios solar ou lunar, o que cria um ambiente ameno e afetivo.
Yoshito pede para dançar com o papel e diz que ao dançar
por sete anos com o material, este elemento será internalizado
e terá presença, mesmo ausente.
Neve, Lua e Flor (Setsugekka)
A neve, que chega a acumular alguns metros de altura, desaparece com
o passar do tempo, torna-se vapor e volta ao céu. A lua, em
constantes mutações, passa de cheia à minguante.
Ela desaparece aos poucos. A flor, como a cerejeira, se esvai momentaneamente
com a ação do vento. Exemplificando assim, as variadas
maneiras de desaparecer do palco, se despediu dos participantes.
WORKSHOP DE AKIRA KASAI
Realizado no dia 04 de setembro (quinta feira)
Para Akira Kasai, o butô é conhecimento corporal. O corpo
é um material a ser lido, como se fosse um livro onde as páginas
brancas permitem inscrições diversas. Mostrou neste workshop
de que o corpo é fonte de inúmeras possibilidades de leituras.
Kasai dança ao falar.
Numa linguagem frenética que mistura o verbal e o corporal,
Kasai explica inicialmente a sua classificação do mundo:
aquela que é baseada nas ciências e outra, no xamanismo.
Ele acredita que o xamanismo, que procura a integração
do homem com o meio ambiente e do homem com o homem, é subjacente
a todas as civilizações, o que foi resgatado pelo butô
dentro de uma estrutura contemporânea. “Pare de pensar”,
falava Kasai, isto é, de ter uma visão científica
do mundo onde as coisas são divididas, classificadas e analisadas.
Deixar a sensibilidade aflorar era a ordem ditada pelo mestre. O artista
diz que ele não conseguirá ensinar formas ou modelos
de dança e acredita que a técnica não seja a
essência da dança. O que é possível a ele,
é tentar propiciar um ambiente onde possa haver a criação
dos movimentos.
Kasai se torna um xamã.
Kasai pede para que os participantes formem um círculo e ele
começa a dançar sozinho. As pessoas, inicialmente, apenas
observam Kasai dançando, sem saber o que fazer. Aos poucos,
o movimento de Kasai começa a exercer uma tal atração
que as pessoas, contagiadas, começam a se movimentar. Foram
mais de 40 minutos de um dançar crescente. Kasai dava algumas
temáticas como: atentem os ouvidos; respire fundo, mais fundo
ainda; sinta-se leve, leve como se não existisse a gravidade;
vc. está no útero materno; a vida é um espiral;
vc. está entrando numa pedra onde estão enterrados os
mortos.
Cotidiano e o não cotidiano
Dualidades como os movimentos naturais do cotidiano e os do não
cotidiano foram temas de experiências corporais. Kasai pedia
para intercalar estes dois tipos de movimentos e discutia com os participantes
as diferenças percebidas. Um deles citou por exemplo, a mudança
da relação que se estabelece com o meio ambiente e com
outros corpos. Existem vários elementos que estão ainda
para serem descobertos, explicava Kasai, mas, para ele, é importante
a concentração e a conscientização da
experiência. Ele salientou também a existência
de polo norte e polo sul, cujos exercícios são relacionados
com a respiração. O polo norte se conecta com a inspiração,
a abertura da mente e o movimento ascendente e o sul, com a expiração,
movimento descendente, com o peso e a melancolia.
A dualidade e o equilíbrio
Kasai esclarece que é importante na dança, o cruzamento
de dois elementos opostos: a sensibilidade e a conscientização
racional dos movimentos. Apesar de ter começado o seu workshop
com o xamanismo, por acreditar ser a parte carente numa sociedade
científica em que vivemos, o equilíbrio dos dois elementos
é essencial. O mesmo se pode dizer entre o movimento cotidiano
natural e o não cotidiano criado, o improvisado e o planejado,
o polo norte e sul do corpo. Deve-se descobrir um equilíbrio
entre eles já que ele é resultante do exercício
de conhecimento mais aprofundado do seu próprio corpo. Manter
a plena consciência dos movimentos e abrir a porta da sensibilidade
são dois elementos que devem estar presentes simultaneamente
quando se dança.
WORKSHOP DE YUKIO WAGURI
Realizado no dia 06 de setembro (sábado)
Waguri apresentou no workshop a transformação de imagem
em movimentos corporais. O método coreográfico apresentado
se baseia em Buto-Fu (Partituras de Butô) de Tatsumi Hijikata.
Para Waguri, a observação é um dos elementos essenciais
do butô. Em quase todos os movimentos propostos, ele desenvolveu
trabalho em duplas, onde um grupo observava o outro, para em seguida,
comentar e orientar o seu parceiro. Waguri começou o workshop
com dois tipos de caminhadas, porque o andar é um movimento essencial
do butô.
Maya (estátua budista sobre a folha de lótus
num rio)
Waguri chama a atenção de que neste modelo, o andar
é um fluir, isto é, você não tem perna,
sendo uma estátua levada pela correnteza do rio. É um
andar que necessita de muita concentração e a preservação
da sua forma é difícil. O artista dá a seguinte
dica: imaginar duas linhas esticadas em direções opostas,
que se conectam com um ponto no espaço, e procurar não
afrouxá-la na caminhada.
Andar conservando a sua altura
Waguri pede aos participantes que andem sem alterar a sua altura no
deslocamento, sem dobrar os joelhos. Após tentativas e observações
em trabalho de parceria, ele dá a indicação:
tudo que se inclina diminui a sua altura, e como todo o caminhar acompanha
uma certa inclinação corporal, o segredo é obter
a compensação com o alongamento da região estomacal.
Pólem / Fumaça
Waguri trabalha com a imagem de estar entrando numa sala repleta de
pólem, dando as seguintes orientações: vc. sente
o aroma do pólem; vc. fica mais leve; o pólem começa
a penetrar nos seus olhos, nos seus ouvidos, na sua boca; vc. inspira
pólem, vc. expira pólem; seus poros começam a
expelir pólem; vc. não reconhece mais a fronteira entre
o seu corpo e o ambiente externo; o seu corpo começa a se derreter;
vc. desaparece no ar.
Waguri trabalha com a imagem mutante da fumaça dando as seguintes
orientações: vc. tem uma perna só; a fumaça
sobe; existe um vento agindo sobre vc.; a fumaça desce e se
espalha no chão.
Sobre a extensão corporal
Waguri pergunta a todos qual é a real extensão do corpo.
Se a imagem construída por um dançarino é limitada
ao espaço do seu próprio corpo, a dança se torna
minúscula. É preciso portanto, imaginar amplas extensões
do corpo no espaço. Ele lembra que a dança tradicional
japonesa tem o kimono como vestimenta e uma dançarina de buyô
(dança clássica japonesa) tem a manga do kimono como
extensão do seu próprio corpo.
Esclarece que, da mesma maneira que deva existir essa conscientização
externa do corpo, não poderá esquecer de dirigir a atenção
para o espaço interno do corpo.
Sobre a previsão e o acaso
Waguri comenta que a previsibilidade é monótona. É
interessante não poder prever o que vai acontecer no momento
subsequente. Como trabalhar com esta imprevisibilidade no seu próprio
corpo? Ele explica que poderá ser obtida através da
rápida negação de uma escolha do movimento improvisado,
movimento este que já é selecionando num tempo absurdamente
curto. Esclarece que é como criar um vento que mudasse instantaneamente
a sua previsão momentânea.
Francis Bacon
Waguri mostra as pinturas do artista Francis Bacon e trabalha a expressão
facial. Pede inicialmente para que os participantes tentem fazer a
deformação do rosto sugerida pela pintura. Após
esta tentativa, ele orienta que a imagem deve ser obtida não
só pelo movimento dos músculos do rosto, mas expandindo-a
desde o peito até um espaço acima da cabeça.
A imagem que se deve criar é de um elástico sendo esticado
no peito de um lado a outro, que segue numa outra direção
na altura da boca e que segue num movimento ascendente para acima
da cabeça em espiral. Divide o grupo em dois que caminha conservando
a expressão facial praticada, para no fim receber a orientação
de se tornar uma lesma que derrete no chão.
Butô como “apresentação”
e não como representação
Ele analisa a arte da mímica como representação,
isto é, o ser humano representa por exemplo um touro. No butô,
no entanto, você deve se tornar o touro. Um dos participantes
pergunta se ele pode se tornar vento. Aí ele responde que é
impossível, que ele nunca se tornará vento. Fica a dúvida
no ar. Waguri esclarece que ao mesmo tempo que vc. se torna um touro,
deve haver a construção do seu eu exterior que te observa
touro.
O workshop finaliza com a apresentação de três
grupos, que tiveram vinte minutos para preparar uma criação
coletiva a partir das práticas da aula.