![]() |
![]() |
|||||||||||||||||||||||
| ASSUNTOS
CULTURAIS |
AQUARELA colheu os depoimentos dos arquitetos brasileiros Ruy Ohtake, Roberto Loeb e Tetsuro Hori sobre a arquitetura japonesa. Ruy Ohtake Arquiteto Em 1982, convidado pelo Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores do Brasil, elaborei o projeto da Embaixada do Brasil para o Japão. Acredito que Tokyo recebeu uma obra bonita. Sobretudo, muito diferente da arquitetura japonesa é a presença da arquitetura brasileira. Alguns anos depois, recebi uma carta do nosso embaixador em Tokyo , Embaixador Bueno, com fotografias mostrando estudantes de arquitetura sentados em frente à embaixada desenhando; numa outra foto, modelos exibindo vestidos tendo como cenário a nossa Embaixada; e na outra, fotógrafos procurando ângulos para suas fotografias. E, que o embaixador teve que fixar horário para visitas de estudantes e arquitetos para que o expediente não fosse muito perturbado. Assim, tem sido a presença do projeto no espaço urbano em Tokyo. Lá, então, fui conhecendo obras de Tange e Maekawa, grandes arquitetos japoneses da metade do século. E, mais recentemente, obras de Tadao Ando, Arata Isozaki, Shigeru Ban, Toyo Ito, com distintas formulações que cada um deles tem. É possível falar de uma arquitetura japonesa? Eu prefiro dizer que encontro um pensamento oriental nas diversas expressões arquitetônicas. A procura de síntese e a aparente diversidade, principalmente em Ito e Ban, constituem uma dualidade contemporânea nessa arquitetura. Ou seja, retrata a grande efervescência cultural do Japão contemporâneo, que está presente também no cinema, na música e nas artes visuais. Tetsuro Hori Arquiteto, Professor da Fundação Armando Álvares Penteado.FAAP Estive pela 1a vez , no Japão, no ano de 1965, logo após formar-me no Curso de Arquitetura da FAUUSP. Apesar de já ter tido contato com arquitetura japonesa através de livros e revistas, qual foi a minha surpresa ao visitar a cidade Kyoto, antiga capital do Japão, onde floresceram as tradicionais arquiteturas de templos e palácios. A minha geração que teve influencia da Escola Moderna, desenvolvida pelos arquitetos como Walter Gropius, Mies van der Rohe, Richard Neutra, Franck Lloyd Wright e Le Corbusier , cujo racionalismo no sistema construtivo modulado, a funcionalidade e a flexibilidade do espaço, grandes vãos criados graças ao uso do concreto armado, a simplicidade na estética do espaço construído ( sem elementos decorativos de esculturas, cornijas etc.) os grandes painéis de vidros permitindo a integração de paisagens externas com o ambiente interno. Outro princípio da arquitetura moderna era a preocupação com a salubridade do ambiente. Para isso a boa insolação e ventilação dos compartimentos internos era um dos fatores importantes a serem considerados nos projetos. A estética proveniente, principalmente da ortogonalidade das estruturas, formando composições Mondrianesca, era uma das estéticas na escola moderna. A minha grande surpresa foi o fato de encontrar todos esses princípios, já aplicados na arquitetura tradicional japonesa. Na época da minha primeira ida ao Japão, haviam alguns
arquitetos japoneses como, Maekawa, Sakakura, que eram conhecidos
por terem sido influenciados pelo arquiteto franco-suisso , Le Corbusier.
Suas obras conhecidas eram de concreto aparente, com pilotís,
que eram as características da sua arquitetura. Nas obras de Tange, por exemplo, podemos notar na cobertura grandiosa da piscina utilizada nas olimpíadas de Tokyo, uma forma conseguida através da alta tecnologia de cabos de aço, formando as catenárias, que faz lembrar as grandes coberturas dos templos budistas. As formas dinâmicas e elegantes da Catedral de Tokyo com a sua estrutura parabolica-hiperbólica, que também cria a cobertura com curvas suaves, típicas da arquitetura japonesa. A exposição da Arquitetura Contemporânea Japonesa, promovida pela Fundação Japão nos recintos da FAAP, mostra as principais obras arquitetônicas entre 1985 a 1996, onde desfilam edifícios das mais variadas tendências. A sede da Prefeitura de Tokyo de Kenzo Tange, mostra a sua dinâmica com características bem japonesas na modulação dos elementos da fachada. Tadao Ando com seu respeito à paisagem do entorno, cria obras que se integram no ambiente, formando espaços serenos como nos templos tradicionais de Kyoto. Kengo Kuma apresenta as mais variadas tendências como: no grotesco M2, na tradicional Noh Stage e uma inusitada obra feita de vidro na Water Glass. Fumihiko Maki, sempre utilizando “hightech” nos Centros de Convenção e Ginásios Esportivos. Essa exposição mostrou as obras que denotam bom nível
de qualidade arquitetônica, hoje globalizadas, no arquipélago
japonês. Arquiteto Lembro-me como se fosse hoje! Ficava encantado com a voz suave e sonora da “Miyuki” cantando “Momotaro San” para nos fazer dormir. Isso em 1945 em São Paulo, no bairro das Perdizes, nos meus 4 anos. Vinte e cinco anos depois, já arquiteto, visitando Tokyo, Kyoto, Nara, Osaka e a Expo Internacional, a canção e a figura de Miyuki me acompanhava fazendo com que me sentisse em casa. Mais tarde, ainda visitando o ateliê do Isamu Noguchi em Nova York, encontrei novamente “Momotaro-San” na bela escultura em granito representando o pêssego partido da fábula infantil. De lá para cá, muita água correu! Da arquitetura tradicional japonesa passando pelas obras de arquitetos como Kenzo Tange e Fumihiko Maki, a arquitetura contemporânea japonesa se desenvolve à procura de identidade e auto-conhecimento, manifestando-se pela presença quer nas regiões metropolitanas da capital e Kansai, como nas cidades médias, pequenas vilas e áreas rurais. É como se a arquitetura dos templos e palácios, se espalhasse, rompendo a exclusividade que dividia o Japão em castas tão distantes e isoladas. É um manifesto de auto-estima e reconhecimento da individualidade de uma cultura que procura se fazer presente pela voz da estética arquitetônica, entre outras artes. A exposição “Arquitetura Contemporânea Japonesa: 1985-1996” organizada pela “Fundação Japão” e o “Architectural Institute of Japan” e a exposição sobre a arquitetura na região de Kumamoto, ao sul do Japão, denominada “Kumamoto Artpolis”, são referências expressivas desta afirmação da individualidade a serviço das comunidades. Procurando referências em minha estante, encontrei um livro do Shin Takamatsu que recebi de presente dele depois de nosso encontro em Paris. Para mim, sua obra ilustra claramente o papel da arquitetura na busca da celebração da humanidade e sua identidade. É um “samurai” arquiteto contemporâneo. Takamatsu desenha e produz o seu sabre arquitetônico simbólico, que é uma belíssima peça de arte marcial produzida em 1986 e que ele chamou poeticamente de “Sabre Killing Moon”. Mas sua arma mesmo é aquela que constrói espaços e identidades. Takamatsu nomeia suas obras como se fossem “totens” monumentais: “Origin I, Origin II, Ark, Pharaoh, Week, Orphe, Kirin Plaza Osaka”. Essa busca de singularidade e identidade move as energias criativas dos arquitetos japoneses, e este é um lindo espetáculo de se ver. No Brasil, a arquitetura de Ruy Ohtake faz uma fusão estética interessante entre seu berço na cultura japonesa e a cultura brasileira. O Instituto Tomie Ohtake e o Hotel Unique são exemplares da sua busca de identidade através da arquitetura. Lembro ainda da dedicação e fervor da Mayumi Watanabe de Souza Lima, que através da arquitetura desenvolveu amplo trabalho sobre educação, sempre na busca da consciência social e cultural e da individualidade criativa voltada para a comunidade. Mas esta já é uma outra história que deixo para depois! |
||||||||||||||||||||||