ASSESORIA CULTURAL


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De Darci Kusano, São Paulo, Editora Perspectiva, 2006
Através do estudo comparado Oriente e Ocidente, este
livro aborda o polêmico escritor Yukio Nishima. Na sua
existência dividida em quatro grandes correntes: a literatura,
o teatro, o corpo e a ação, uma vez que já amplamente
conhecido como romancista, ênfase é dada sobretudo ao
teatro (Mishima dramaturgo e diretor) e ao corpo, com sua
singular estética do corpo de inspiração grega, Mishima ator
de teatro, musical e cinema, bem como modelo fotográfico
quase sempre desnudo.
O escritor zombava: “Quero manter o romance como o
meu fundamento e me relacionar com o teatro como um
hobby, como se com a esposa e a amante”. Mas longe de
se tornar um hobby, a sua vocação dramatúrgica o levou a
criar 62 obras.

capa do livro "Yukio Mishima: O homem de teatro e de cinema" |
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Quando jovem, vemos Mishima desenbarcando no Brasil
em 1952. O velho mundo, a Europa, assim como os Estados
Unidos já teriam se esgotado como fontes de inspiração e
ele procurava algo novo. De sua estadia na fazenda de
Toshiko Tarama em Lins (São Paulo) resultou o drama “A
Toca de Cupins”, com a oposição “sangue velho” (Japão)
versus “sangue novo” (Brasil) e Prêmio Kishida de Dramaturgia
em 1955; ao se extasiar no carnaval do Rio, a
deliciosa opereta “Bom Dia, Sra.!”; e do convívio da colônia
japonesa, o conto irônico Mulheres Insatisfeitas. Participou
de colóquios e contribuiu com artigos para periódicos
paulistanos em língua Japonesa. Em seguida, a Grécia o
fez descobrir “a identidade do padrão ético entre criar uma
obra bela e tornar-me belo. Creio que os gregos antigos
possuíam essa chave”. Assim, a crença dos gregos no exterior
vai se tornar seu método estético.
Nesta obra bem ilustrada, “Yukio Mishima: O homem de
teatro e de cinema”, a autora tentou abarcar o teatro
completo de Mishima, o seu filme Patriotismo, bem como as
questões do corpo e da ação, ambas de vital importância
para o escritor. Os leitores depararão com o seu amplo
leque de interesses cênicos, do tradicional à vanguarda.
Pode –se dizer do Nô ao Butô, passando pelo Bunraku,
Kabuki, Shingeki (teatro moderno), radionovela, ópera e
musicais. |
Inicialmente influenciado pela “Fedra” de Racine, Mishima
modelou-se no teatro clássico francês. A juventude em
plena II Guerra Mundial o fez adotar o lema: “Viver como
se não houvesse amanhã”. Criou o melodrama “Palacete
das Festas” e as obras-primas “Peças de Nô Moderno e
Kabuki de Mishima”. Apolítico até então, em 1960 entra na
fase varonil e compõe a “Trilogia sobre o Incidente de 26
de Fevereiro de 1936”. E no drama “A Queda da Família
Suzaku”, ousou abordar o tabu supremo do Japão, com a
questão do imperador e a sua responsabilidade na guerra.
Já em “Marquesa de Sade” (de outubro/2005 a fevereiro/
2006, esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil
de São Paulo, dirigida por Roberto Lage e protagonizada
por Bárbara Paz, numa tradução de Darci Kusano) e“Meu Amigo Hitler”, realizou experimentações extremas do
teatro de diálogos. Empenhou-se em traduções de Racine,
Goethe e D’annunzio. Amigo de Hijikata Tatsumi, testemunhou
o nascimento da dança de vanguarda butô. No
final, Mishima dirigiu o drama poético “Salomé” de Oscar
Wilde, obra que abre e fecha o seu ciclo de vida adulta.
Além de Wilde, foi influenciado por Raymond Radiguet, Ôgai
Mori, Thomas Mann, Friederich Nietzche e Georges
Bataille. A malhação e os esportes transformaram-no em
modelo de fotos ousadas, ator de teatro e cinema. Assim
tornou-se diretor e ator em algumas de suas próprias
peças, peliculas da Companhia Cinematográfica Daiei e
no seu filme Patriotismo.
Todavia, o encontro com um grupo de jovens do Ronsô
Journal (Revista Polêmica), que pretendia consertar o Japão
distorcido, provocou-lhe uma transformação revolucionária.
Influenciado pelo conceito de bunbu-ryôdô, isto é, “o caminho combinado do erudito e do guerreiro” ou“ a habilidade em ambas as artes, literária e militar”, dá-se
o nascimento do Mishima ativista com a criação da sua
organização paramilitar de estudantes, a Sociedade do
Escudo. Seus ensaios políticos, reunidos em “Tratado para
a Defesa da Cultura”, já caminham lado a lado com a ação.
Em um de seus textos jornalísticos mais conhecidos, o
escritor profetizou: “Se continuar assim, o Japão desaparecerá
e no seu lugar restará uma grande potência
econômica, inorgânica, vazia, neutra, rica e astuta num
canto do Extremo Oriente”.
“O homem moderno é quase destituído do desejo dos
antigos gregos de viver ‘com beleza’ e ‘com beleza’ morrer,
declara o autor em “Sol e Aço”, o seu menor tratado
sobre o corpo. Ele acreditava que é importante morrer
por algo, isto é, pela defesa da cultura, cujo símbolo é o
imperador”, não o imperador enquanto pessoa física, mas
o imperador como uma idéia cultural. Por fim, a obsessão
pelo pensamento com ação levou Mishima a procurar
a fusão de arte e vida, estética e ideologia, arte e ação. O
que culminou no seu trágico final através do seppuku, a 25
de novemro de 1970, no Quartel General de Ichigaya em
Tóquio, quando ele dramatizou e protagnizou sem falhas a
morte ritual do samurai.
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