HISTÓRIA DO JAPÃO

  
 

História do Japão – 16

DO FIM DA ERA TOKUGAWA ATÉ A SEGUNDA GRANDE GUERRA, PASSANDO PELA RESTAURAÇÃO MEIJI

Umemiya Masakatsu
Ex-Diretor de Fundação Japão São Paulo

Então, dos quatro mares vagas ameaçadoras chegam, sombras de navios negros pendem e a sirene da História anuncia o fim da Era Tokugawa”. Junho de 1853. A frota das Índias Orientais dos Estados Unidos, sob comando do Comodoro Perry, ancora na baía de Edo. O pânico toma conta do Japão. De fato estes navios significavam o fim de mais de duzentos anos de isolamento dos japoneses. Não logrando o intuito de retomar o comércio proibido, a frota retorna no ano seguinte e impõe um tratado de abertura de portos. A partir deste tratado o Japão terá de se abrir cada vez mais a outras potências, não somente para os Estados Unidos.

Em 1856 os Estados Unidos indicam e enviam Townsend Harris como o primeiro cônsul geral americano com firme propósito de obter o direito de comércio com o Japão. No primeiro momento o Governo – Bakufu – recusa-se a receber a credencial. Harris força então a sua admissão, estabelece-se no Templo Gyokusenji em Shimoda, transformando-se no primeiro cônsul geral estrangeiro em solo japonês. Sua ação seguinte é pressionar veementemente o Bakufu a aceitar o Tratado de Comércio. Manobras para obter a autorização do imperador necessária para aceitar a assinatura, somado ao problema sucessório do 13o Shogun Iesada, logo se transforma em problema político que colocará o Japão em ebulição. Figura proeminente nesta fase é Hashimoto Sanai, jovem político do Feudo de Echizen. Hashimoto defendia a aliança e parceria comercial com a Rússia, sustentava que sem a abertura para outros países e investimento em defesa através do desenvolvimento econômico não haveria a independência do Japão; para realizar estes objetivos seriam necessárias as reformas domésticas e para isto seria imprescindível a liderança de Yoshinobu Hitotsubashi, que, na sua opinião, deveria se tornar xôgun.

Neste quadro conturbado, Ii Naosuke, assume o cargo de Tairo, equivalente ao do primeiro ministro. Procurou apaziguar a disputa com a indicação de Tokugawa Yoshitomi como sucessor oficial do xogunato. Por outro lado, pressionado por Harris, assina sem a permissão oficial da corte o “Tratado de Amizade e Comércio entre os Estados Unidos da América e o Império do Japão”. Com o primeiro tratado assinado, o Japão é forçado a assinar com outros países, Holanda, Rússia, Inglaterra e França, o Tratado de Ansei. O conteúdo destes tratados é repleto de desigualdades, como a entrega de jurisdição sobre os estrangeiros para os próprios estrangeiros, taxas aduaneiras unilaterais e francamente desvantajosas, demonstrando a clara posição servil do Japão em relação a outros países. A este propósito, a retificação destes tratados para aqueles mais equilibrados vai levar mais longos cinqüenta anos.

Contra a política autoritária de Ii surgem violentas resistências de alguns grandes feudos, bem como de muitos samurais idealistas e politizados (Shishis), mas Ii os combate através de grande repressão, culminando com a “Ansei no Taigoku” (Grande Prisão dos anos Ansei). Muitos samurais destes feudos e também renegados que se atiraram a movimentos políticos são presos e os executados sobem a algumas dezenas. Entre eles figura o já citado e maior rival político de Ii, Hashimoto Sanai, que perece decapitado. Pela sua estatura intelectual e moral, tivesse sobrevivido até a era Meiji, certamente faria frente aos estrangeiros representando o Japão como governante. Foi uma perda inestimável. Como vítima desta repressão, não podemos esquecer também de Yoshida Shoin, que era o líder teórico e espiritual dos jovens samurais do Feudo de Choshu. Ii será assassinado pelos samurais de Mito no ano de 1860, na saída do portão Sakurada do castelo de Edo, talvez para pagar por estes atos.

Os feudos e ativistas calados com a Taigoku, retomam os seus movimentos. Essa época é conhecida pela rivalidade entre os Kôbu-gattai-ha e os Son´nô-jôi-ha, o primeiro, uma facção que visava unir os samurais e a corte, e o segundo, um grupo de xenófobos que proclamava a ascendência do imperador sobre os samurais. A mudança deste Son´nô-jôi-ha para um grupo com visão declaradamente belicista contra o governo de Tokugawa (Bakufu) se dá sob influência de dois acontecimentos. A Guerra dos samurais do Feudo de Satsuma contra a Inglaterra e o bombardeio de frotas aliadas em Shimonoseki (Feudo de Choshu). Satsuma e Choshu, totalmente abatidos, aliam-se e recebem suporte da Inglaterra, e passa a se contrapor ao Bakufu, apoiado pela França. Comenta-se essa virada como copernicana, tal a improbabilidade existente. Choshu estava em crise devido ao estado de guerra contra o Bakufu. A aliança com Satsuma trouxe novo alento e Choshu consegue superar a crise. O promotor desta aliança foi Sakamoto Ryoma do Feudo de Tosa. A aliança se mostra firme e poderosa. Em 1868, o governo central do Tokugawa cai após 265 anos de poder.

Assim se dá a grande mudança, chamada mais tarde de Restauração Meiji. O seu espírito está inscrito em cinco artigos do “Voto Imperial”: “Amplamente acolher as vozes do povo e decidir sempre pela opinião pública”. O novo governo, em seguidas medidas, realiza reformas que vão consolidando a centralização do poder: A devolução do poder feudal para o Imperador, a extinção do feudo e a criação de províncias, a implantação de um novo regime escolar, a adoção de um novo regime de terras e taxação, a lei do serviço militar. Ao mesmo tempo o novo governo envia à Europa e aos Estados Unidos a “Delegação Iwakura”, cujo objetivo era observar as realidades estrangeiras para servirem de subsídios para o processo de modernização.

Internamente, muitos samurais perdem simul-taneamente o emprego e os privilégios, levando-os a revoltas, tais como a de Saga e Hagi, culminando com a Seinan-Senso, literalmente “Guerra do Sudoeste”. Esta revolta dos samurais desesperados era liderada pelo antigo membro proeminente do novo governo, Saigo Takamori, e o confronto causa mais de 30 mil baixas, tal foi a sua intensidade.

Após a derrota dos revoltosos, paulatinamente vai surgindo a tendência a combater o governo pelas palavras e não pelo emprego de armas. A mais famosa é certamente o Jiyu Minken Undo – Movimento pela Liberdade e Direito Civil. Este movimento se inspirava no Voto Imperial, e era uma proposta democratizante. Entretanto, com a repressão exercida pelo governo que já mostrava a sua tendência autocrática, os redutos dos partidários são eliminados e, com o aniquilamento da revolta de Chichibu Konmin-To, Partido dos Devedores do Chichibu, o movimento chega a seu fim. Ao nosso ver, esse fato de ter eliminado o movimento democratizante faz da Restauração Meiji uma revolução traída.

Com o caminho livre, a facção militar liderada por Yamagata Aritomo passa a ter sua predominância no cenário político. Após a guerra contra a China e contra a Rússia, em 1910, o Japão anexa a Coréia e prossegue o seu caminho ao imperialismo. Em 1925 há a decretação da Lei de Segurança Interna e enquanto promove a repressão sistemática às “ideologias exóticas”, sob mando dos militares, inicia o Conflito Militar da Manchúria que acaba na Guerra de 15 Anos (Guerra Sino-Japonesa). Até 1945, sob o pomposo nome de “Grande Zona de Co-Prospe-ridade da Ásia Oriental” em todos os cantos da região os adeptos do militarismo promovem os mais bárbaros genocídios, que teve a origem nas condutas dos dirigentes da Era Meiji. Por isso, é necessário reconhecer o “lado sombrio” da era Meiji. Nas palavras do historiador Amino Yoshihiko em sua obra “A História da Sociedade Japonesa” : “ ...entendo que o caminho escolhido pelos dirigentes japoneses de Meiji em diante foram caminhos equivocados. Apesar de esta escolha ter sido feita numa circunstância de grandes pressões das potências mundiais que culminaram no desmantelamento da dominação da classe guerreira (samurais) e na independêcia do Japão, foi, na verdade, a pior escolha possível, sob uma consciência equivocada, com a falsa imagem imposta pelo governo, que levou os japoneses para uma guerra catastrófica, vitimizando os povos asiáticos”. O autor destas linhas compartilha esta visão.

Em 1945, com o fim da guerra, o Japão perdeu tudo. Mas retirando ensinamentos da História e criando novos valores, será capaz de construir uma sociedade baseada na crença na verdadeira paz e liberdade. Gostaria que estas palavras de esperança marquem o encerramento deste modesto trabalho.

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