O japão inusitado
   - Série de entrevistas


  
 
Diretora da Peça "Os Sete Afluentes do Rio Ota"

fotos: André Gardenberg


Este artigo inaugura uma série de entrevistas que pretende apresentar personalidades culturais do Brasil que surpreendem por possuir conhecimento profundo sobre aspectos culturais japone-ses e que muitas vezes fazem refletir em suas produções. Monique Gardenberg, diretora da peça de grande sucesso “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, é a primeira convidada. A obra, original do canadense Robert Lepage, tem como ponto de partida o lança-mento da bomba atômica na cidade de Hiroshima, aconteci-mento que repercute na vida dos personagens no tempo e no espaço.



AQ.: Esta é sua primeira direção em teatro, e você enfrentou vários desafios. Queríamos enfocar principalmente no aspecto "Japão". Como foi trabalhar com a cultura japonesa nesta peça?

Monique Gardenberg: Foi particular-mente interessante. Sempre nutri uma admiração muito grande pelo jeito de ser dos japoneses, e poder entender a origem do seu compor-tamento, as razões culturais por trás da forma foi uma experiência muito rica. Posso dizer que me identifico muito com a maneira de ser japonesa, na qual eu ressaltaria o respeito, a de-licadeza e uma dureza firme para lidar com as tragédias.

AQ.: Na peça, Beth Goulart reproduzia de maneira impecável os gestos e o modo de falar de uma japonesa. Jiddu Pinheiro também teve que repre-sentar o japonês. Como foi o envol-vimento do elenco com o modo de ser japonês?

M.G.: Tivemos a consultoria da professora Satomi, que nos deu algumas aulas sobre a história do Japão e nos orientou quanto à forma de se comportar dos japoneses, seja no pós guerra, seja nos anos 60 ou nos anos 2000. Além disso, Beth Goulart trouxe toda a sua formação de dançarina para a personagem de Nozomi, imprimindo com o corpo as intenções e as reações que seu rosto não podia revelar. Também tivemos a colaboração de Dani Hu para desenhar perfeitamente os cumprimentos orientais, a forma de sentar e a forma de andar.

AQ.: Você já produziu o espetáculo do grupo Sankai Juku, no Brasil. Existe algo do grupo que foi explorado na peça?

M.G.: Acho que o sentimento dos trabalhos do Sankai Juku está presente nos capítulos 1 e 7. Mas a maior contribuição que o grupo me deu foi o contacto que pude ter com o butô antes de tudo acontecer, antes mesmo de assistir a peça em Nova York, em 1996. Quando se tem conhecimento de todas essas coisas que a obra aborda, seja a perda de um ente querido, seja a origem judaica, seja o budismo, seja a música, seja o butô (com as razões do seu surgimento), tudo passa a fazer sentido. Por isto me afetou tanto. A obra acaba por se tornar, de alguma forma, auto-biográfica, e foi por isso mesmo que quis montá-la.

AQ.: Como a peça influenciou na imagem que você tinha do Japão?


M.G.: Apenas confirmou o que eu já intuía: um povo que adquiriu uma sabedoria sobre a vida, sobre a nossa passagem aqui na terra.

AQ.: A cultura japonesa tem uma linguagem estética própria. Como foi explorá-la e transformá-la em algo universal, que nos parece ser a proposta original na peça de Lepage, e que você endossou?

M.G.: A linguagem estética de cada cultura foi respeitada. O que torna a peça universal é a sua humanidade. É ela que une tudo, seja no Japão, seja em Nova York ou em Terezin. Seja em 1945 ou no ano 2000.


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