O japão inusitado
   - Série de entrevistas


  
 
Coreógrafo e bailarino

fotos: divulgação


Ismael Ivo, coreógrafo e bailarino que atua na Alemanha, esteve no Brasil para participar do Vestígios do Butô, com o solo "Delírio de uma Infância" e a peça reconstituída "As Galinhas", de Takao Kusuno. Ivo é conhecido como o filho artístico de Kusuno, e foi a partir de seus ensinamentos que entrou em contato com o modo de expressão do Butô, que tornou fundamental para o seu trabalho corporal-artístico. Também colaborou com grandes artistas japoneses, como Yoshi Oida e Ushio Amagatsu (Sankai-juku).



AQ.: O que é Butô para você, e como transparece em suas danças?

Ismael Ivo: Sempre percebo que no início do processo de criar uma dança, consigo traçar idéias de movimento e incorporá-las ao meu vocabulário artístico. Um dos momentos que foram fundamentais para essa compreensão foi o trabalho que tive com Takao Kusuno. O Butô foi uma maneira não só de entender a dança, mas de entender o corpo. Também, quando existe um tipo de sintonia e entendimento no vocabulário, isto é refinado até um ponto onde você vê o movimto em si não mais como tal, mas como um momento essencial. Isso é Butô. Ele não é para ser enquadrado como uma técnica ou uma forma, mas como necessidade de se aprofundar no seu próprio corpo e soltar os movimentos de maneira mais autêntica. O corpo deixa de ser corpo e passa a existir como momento de milagre, momento mágico. O trabalho físico é importante, mas deve ser feito intensamente para depois não precisar mais pensar nele e começar a existir por si próprio enquanto linguagem. Esse panorama se estende não só a um estilo de dança, mas à essência da dança em si. Comecei a entender isso a partir do trabalho com o Takao.

AQ.: Como o trabalho com Takao Kusuno mudou sua visão em relação à dança?

I.I.: Takao nunca me pediu para dançar Butô. Segundo ele, Butô é uma forma de encenação, de colocar idéias no palco enquanto linha cenográfica. O pensamento centraldo Butô, segundo Takao, era estar profundamente em contato com o meu corpo e através disso fazer nascer os meus próprios movimentos. O que foi interessante nele é que, ao se radicar no Brasil, não tentou importar uma idéia. Ele tinha um olho muito apurado do Brasil e das pessoas e dos bailarinos que ele escolheu trabalhar. Ele tentou desvendar, para mim, o bailarino negro vivendo no Brasil, tendo uma história racial e cultural nesse país. Que tipo de idéias impregnadas no meu corpo e nas minhas células que eu, enquanto artista, podia expressar, em forma de dança. Essa busca de identidade já não é só a dança em si, mas uma identidade pessoal e cultural. Porque o artista descobre e desenvolve o seu vocabulário de acordo com o que ele entende o mundo que o cerca, as coisas que influenciam sua vida e expressa suas idéias em forma de dança. Outra coisa é o ato de raspar a cabeça. No Butô não é obrigatório raspar a cabeça, mas para mim, foi um rito de passagem, um ato de me desvendar a mim mesmo para passar para uma outra fase artística.

AQ.: Você já trabalhou em colaboração com Ushio Amagatsu, do grupo de butô Sankai Juku e Yoshi Oida, ator japonês que trabalha ao lado de Peter Brook. O trabalho com Takao ajudou você se aproximar dos artistas japoneses na Europa?


I.I.: Absolutamente, porque quando cheguei na Europa depois dos Estados Unidos, foi exatamente o momento aonde a dança expressiva alemã e o Butô eram as grandes revoluções que estavam virando a cabeça dos coreógrafos da Europa. São as duas correntes que mais influenciaram o desenvolvimento da dança contemporânea européia. Engraçado porque, quando o Butô era uma completa novidade para as pessoas, para mim já era conhecido, graças ao Takao. Eu tinha um entendimento muito claro de aonde vinha, as origens dos artistas japoneses que estavam se radicando na Europa e de onde vinham as fontes do vocabulário. E agora, pude ver a surpresa dos artistas japoneses que participaram no "Vestígios do Butô", aonde pude reproduzir "As Galinhas" de 23 anos atrás, que viram que o Butô tinha também se desenvolvido dessa lado do planeta, paralelamente.



AQ.:Você dançou As Criadas, que teve a direção de Yoshi Oida. Como foi atuar com ele?

I.I.: Com Oida foi a mesma coisa, que possúia um tipo de vocabulário específico para criar "As Criadas" de Jean Genet. Ele mesmo me cumprimentou, dizendo que eu consegui atingir rapidamente um nível satisfatório. É uma soma de experiências, mas vejo que o Takao me marcou, no sentido mais positivo possível. No sentido de me oferecer o essencial quando eu precisava desenvolver minha própria dança.


AQ.:Conte sobre sua colaboração com Ushio Amagatsu.

I.I.: Quando comecei a ensaiar o "Apocalipse" com Amagatsu, ele viu que eu já possuía uma certa experiência. Eu já tinha um entendimento muito claro sobre o que ele me dizia para fazer, através de improvisações sem muita dificuldade de ordenar a encenação do espetáculo.


AQ.:Como foi o intercâmbio com os artistas japoneses de butô que participaram do Festival?

I.I.: Infelizmente não tive muito tempo porque estava empenhado em reconstruir "As Galinhas".
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