O japão inusitado
   - Série de entrevistas


  
 
Presidente do Instituto de
Desenvolvimento de Tradições Indíginas


fotos: divulgação


Siridiwê Xavante, presidente do Instituto de Desenvolvimento de Tradições Indígenas, foi convidado por Takao Kusuno para integrar a Cia. Tamanduá de Dança-Teatro* e dançar a peça "O Olho do Tamanduá", em 1995. Desde então, o contato de Siridiwê com o Japão não parou mais, culminando numa visita ao país em outubro de 2003 para participar da Bienal de Kyoto, como integrante da Companhia. Ao mesmo tempo, foi possível nessa viagem aprofundar o intercâmbio com o povo Ainu, minoria japonesa residente na ilha de Hokkaido.

AQ.: Como começou o seu relacionamento com Takao Kusuno e Felícia Ogawa**? E como foi a experiência de trabalhar na peça criada pelo casal?

Siridiwê Xavante: Conheci Takao e Felícia Ogawa através de uma amiga que trabalha na FUNAI. Ela me sugeriu encontrar com o casal de artistas que estava procurando um integrante indígena para um grande projeto de criação de uma peça de dança-teatro. No dia seguinte eu já estava me reunindo com os dois. Fiquei muito feliz porque foi a primeira vez que, no mundo do teatro, um diretor teve a sensibilidade de buscar o próprio indígena. O que acontece normalmente é que os atores são chamados para representar o índio. Outra coisa que me tocou foi que tanto Takao como Felícia conheciam mais do que qualquer outro brasileiro o universo indígena. Eles pesquisaram muito bem sobre o significado do tamanduá em nossos mitos, onde a presença do bicho é muito forte. Não foi à toa que se adotou um representante no universo dos animais, muito ligado ao universo indígena; da mesma forma, o animal simbolicamente traduz uma preocupação sobre a preservação do meio-ambiente. Esse lado me convenceu e achei que era o caminho certo. O fato de um grande diretor oferecer uma oportunidade para o próprio indígena se apresentar, foi o que mais me fez levar a sério a proposta, que fala da relação do homem com o meio ambiente. Quando o povo indígena estava sob ameaça de extinção ou de um novo massacre, Takao e Felícia tiveram a sensibilidade de abordar a questão no ponto de vista da arte.

AQ.: O olhar de fora, dos não-brancos, nem dos dominantes, nem dos dominados.

S.X.: O fato de Takao, um japonês, ter revelado a transformação da cultura e do povo brasileiro, assim como sua complexidade e beleza, foi uma grande lição. O fato de desvendar o que há de bonito dentro de casa, sem se limitar nas fronteiras nacionais, foi uma contribuição inestimável!

AQ.: Como foi a experiência de apresentar o “Olho do Tamanduá” no Japão, no contexto da Bienal de Kyoto?

S.X.: Era o grande desejo de Takao e Felícia levar a Cia. Tamanduá para o Japão. Ir sem eles foi uma oportunidade de contemplação para, em nome dos dois, realizar este desejo. Mostrar que continuamos neste esforço de apresentar o que o casal nos ensinou, foi uma grande responsabilidade, assim como representar e colocar em prática a grande pesquisa, pois lá estariam os “papas” do butô, o público crítico.

AQ.:Como foi a reação desse público?

S.X.: O estúdio de dança, que tinha sido transformado em teatro, ficou lotado. Quando terminou, os espectadores pareceram ter ficado anestesiados, pareceram muito emocionados. Acredito que o que Takao e Felícia quizeram propor conseguiu ser transmitido ao público japonês.


AQ.:O grupo se apresentou em outras cidades japonesas?

S.X.: Fizemos uma apresentação em Kushiro, na ilha de Hokkaido. Lá, o público não parou de aplaudir.


AQ.:Como foi o contato com o povo Ainu?

S.X.: Antes do Festival de Kyoto, permaneci 15 dias junto ao povo Ainu, na beira do lago Akan para realizar um intercâmbio cultural com os indígenas brasileiros. Levei junto comigo o grande Cacique e um jovem Xavante videomaker para documentar nosso contato.
A instituição que dirijo vem desenvolvendo um encontro com indígenas dentro e fora do Brasil. Convidamos os Ainus no ano passado para participar do evento “Rito de Passagem”, em São Paulo. Além deles, mantemos contatos com outros grupos indígenas como os Maori da Austrália e os índios norte-americanos.

 
Sequência de fotos da estadia da delegação Xavante em Hokkaido, junto ao povo Ainu / fotos:divulgação
 

* Cia. Tamanduá de Dança-teatro: formada por artistas, dançarinos-atores, foi fundada por Takao Kusuno (1945-2001) em 1995, norteando suas criações na essência da cultura brasileira e expressando-as em linguagem contemporânea. Takao, japonês, artista plástico e cênico, era radicado no Brasil desde 1997, participou ativamente dos movimentos de vanguarda artística do Japão nos anos 60, entre eles o butô.

** Felícia Ogawa foi esposa e colaboradora de Takao Kusuno.
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