O
japão inusitado
- Série de entrevistas

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Diretor
da Conrad Editora
A Fundação Japão enviou para Rio de Janeiro e São
Paulo, o autor, diretor e roteirista de animê Yoshiyuki Tomino,
mais conhecido como o criador da série de robôs Gundam, entre
os dias 29 de fevereiro a 4 de março. Tomino realizou a palestra
“A Origem do Animê de Robô no Japão” e
debates com especialistas em animação. Para sabermos mais
sobre a influência da cultura pop japonesa no Brasil, Aquarela convidou
o diretor da Conrad Editora, Rogério de Campos para o “Japão
Inusitado” desta edição.

foto: divulgação |
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AQ: Rogerio, poderia nos
contar
como surgiu a Conrad Editora?
RC: O André Forastieri, a Cris Monti e eu
criamos a editora há dez anos. Eu e o André éramos
jornalistas. Trabalhamos juntos na Folha e na Editora Azul, até
que resolvemos realizar o sonho da maioria dos jornalistas: criar
a própria editora. Na maioria das vezes, essa idéia
de criar uma editora fica no sonho, ou, quando avança, transforma-se
em pesadelo. Mas demos muita sorte, e eis que a Conrad é
hoje uma das principais editoras brasileiras.
AQ: Na Divisão de revistas, o mangá parece
constituir um segmento importante. Como surgiu a idéia de
investir nas histórias em quadrinhos japonesas, não
somente as mais populares, mas também as histórias
cults (como o “Gen Pés Descalços” e “Preto
e Branco”)?
RC: Sempre estivemos interessados na cultura pop
japonesa. A idéia de publicar Dragon Ball, por exemplo, veio
muito antes que o desenho animado voltasse à TV. Compramos
os direitos de Pokemon no momento em que a série ainda não
chegara ao Ocidente. E fomos, depois dos EUA, a primeira editora
a publicar revistas oficiais do Pokemon no Ocidente. Ao mesmo tempo,
sempre estive interessado em mostrar que a nova cultura popular
japonesa não se resume a febres momentâneas. Também,
em desmanchar visões preconceituosas que acham que quadrinhos
japoneses são personagens de olhos grandes, e lutar contra
visões distorcidas que acham que mangás são
pura violência. O Japão é a nação
dos quadrinhos. Os mangás significam 40% da produção
editorial do país. É uma tradição que
começou há muitos séculos e que passa por artistas
como Hokusai. Então, temos nos esforçado para apresentar
ao leitor brasileiro não só os grandes sucessos comerciais
dos quadrinhos japoneses, mas também títulos que demonstram
a qualidade da arte e a profundidade do pensamento japonês
contemporâneo.
AQ: Para você, o sucesso de “Vagabond”,
mangá baseado na história de Miyamoto Musashi, ocorre
em função do livro, também sucesso editorial
no Brasil, ou seria um fenômeno à parte?
RC: Vagabond é algo à parte mesmo
no Japão. Lá também, histórias de samurais
pareciam estar se tornando coisas do passado. E o mangá de
Takehiko Inoue revitalizou o gênero não só no
mundo dos quadrinhos, mas em diversas outras áreas. Ele é
um fenômeno, que agradou desde velhos fãs de Toshiro
Mifune até jovens meninas encantadas com o jeitão
boa pinta do Musashi da versão Inoue. Tanto que Inoue e seu
Vagabond virou figura frequente em revistas de moda japonesas e
até a Vogue brasileira deu uma matéria sobre ele.
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AQ: Você
acha que o jovem brasileiro hoje se familiariza mais com os mangás
do que as HQ americanas ou européias?
RC: Sem dúvida, os mangás hoje dominam
todos os mercados de quadrinhos do mundo. Dragon Ball sozinho vende
mais que todos os super-heróis norte-americanos reunidos.
Isso no Brasil, na Argentina e na Europa. Mas o mais importante
é que os mangás estão revelando para os leitores
e quadrinistas ocidentais novas maneiras de ver e fazer quadrinhos.
Falar de qualquer assunto e para todo o tipo de público.
Porque, no Japão, quadrinhos não é só
para criança.
AQ: Como foi publicar os 2 volumes da biografia de Osamu
Tezuka?
Qual seria sua utilidade para o público brasileiro e como
tem sido
sua reação?
RC: Faz parte dessa nossa ação didática
de apresentar as diversas facetas do quadrinho japonês para
o público brasileiro. Consideramos muito importante que os
leitores que estão descobrindo parte da cultura japonesa
através de mangás e animês, tenham oportunidade
de saber mais do seu passado e da sua evolução, e
assim aprendam um pouco mais da própria cultura do Japão.
AQ: Como vocês se relacionam com as editoras japonesas
como a Shueisha, Shogakkan, Kodansha? Tem tido algumas dificuldades
específicas, por serem editoras japonesas?
RC: Temos ótima relação com
todas elas e há bastante tempo. Publicamos os principais
títulos de cada uma. E, no caso da Kodansha, estamos começando
a publicar livros. A maior dificuldade no relacionamento com as
editoras japonesas, como não poderia deixar de ser, é
a distância física. Seria muito bom se tivéssemos
entre Brasil e Japão alguma estrutura que facilitasse as
viagens de negócios. Cada viagem para o Japão rende
vários títulos novos no Brasil.
AQ: Como surgiu a idéia de publicar “Memórias
de um anarquista japonês”, de Sakae Osugi, personagem
que marcou a história do movimento socialista do Japão?
Através disso, que tipo de formação você
visou para o público?
RC: Como disse, tenho muito interesse em mostrar
as diversas facetas da cultura japonesa. Sakae Osugi foi uma figura
encantadora, um herói do pensamento libertário mundial,
e sua autobiografia oferece uma visão muito particular do
que foi o início do século XX no Japão. É
a visão de alguém que critica radicalmente diversos
aspectos da sociedade japonesa da época - o militarismo,
por exemplo - mas faz sua crítica a partir de dentro do Japão.
Não é um estrangeiro. É alguém que vem
de uma família de militares japoneses. Isso dá ao
livro um sabor muito especial. |
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