O japão inusitado
   - Série de entrevistas


  
 
Entrevista realizada por Chiaki Karen Tada

Criado há 60 anos pelo empresariado brasileiro de comércio e serviço, o Sesc (Serviço Social do Comércio) é uma entidade com forte atuação nas áreas de cultura, esportes, saúde e educação. Música, teatro, dança, cursos para a terceira idade e atividades esportivas para crianças e adultos são oferecidos a toda a população, assim como programas de conscientização ambiental e de inclusão social. Há um Sesc regional em cada Estado do Brasil. O de São Paulo, o mais rico de todos, tem 30 unidades espalhadas pelo interior e capital, que atendem semanalmente a mais
de 300 mil pessoas. A Fundação Japão tem realizado várias atividades em parceria com o Sesc, principalmente nas áreas de artes visuais e performáticas. O diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, explica que o objetivo principal da entidade é, antes de mais nada, o bem estar social.


foto: divulgação
     
FJ: Gostaríamos de falar um pouco da política do Sesc para a arte e a cultura. Como vocês trabalham com elas?

DANILO: O Sesc não é uma instituição cultural ou esportiva. É uma instituição de bem-estar social que usa todas as estratégias possíveis para promover o desenvolvimento das pessoas e a qualidade de vida. Isso foi criado lá atrás, em 1946, quando os empresários disseram ao governo: “queremos fazer uma instituição de bem-estar social para os nossos trabalhadores e para a população em geral. Para isso queremos uma lei que obrigue as empresas a pagarem [uma contribuição]”. Nos anos 40 nós
vivíamos um momento muito especial do pós-guerra, de democratização e de urbanização do país. O Brasil saía do modelo rural para o industrial. Os empresários precisavam de uma mão-de-obra mais preparada para tocar a
transformação econômica que o Brasil precisava enfrentar.
Precisavam de formação profissional e de um projeto de bem-estar social para que os trabalhadores se sentissem felizes, para que pudesse haver um projeto de paz social. Naquela altura o Partido Comunista estava crescendo e era apoiado pela União Soviética. A possibilidade de o Brasil se transformar num modelo parecido com o socialista não era uma coisa absurda. Militares, empresários e famílias
tradicionais começaram a ficar preocupados. Então veio a idéia da formação profissional, com a idéia do bem-estar social embutida nisso. O Sesc e o Sesi (Serviço Social da Indústria) são gerados nesse momento, sob a proteção das
confederações patronais da indústria e do comércio. Mas nós não somos uma instituição patronal. Nós, funcionários, somos contratados para realizar um programa que não tem necessariamente vínculo com as respectivas entidades patronais do ponto de vista conceitual e ideológico.
Bom, no projeto de bem-estar social, há várias áreas onde é preciso atuar, incluindo educação, saúde e transporte. E ão lá, junto. O esporte é uma das coisasque vem em primeiro lugar. Mas junto vem também a cultura
como elemento importante, catalizador, de envolvimento, de valorização da ação dessas pessoas.

FJ: O senhor acha que o Sesc hoje tem mais força no esporte e na cultura?

DANILO: Tem mais na cultura. O esporte hoje se divide de maneira muito clara entre o Profissional, de resultados, e o esporte como ferramanta de educação, mudança e transformação. Temos uma força muito grande no que chamamos de esporte para todos, inclusivo. Mas ele não aparece na imprensa. Você faz uma Olimpíada para 300 empresas e sai uma nota pequena no jornal do bairro. Agora,
só para fazer a contraposição, eu trago, pela Fundação Japão, cinco vídeos mostrando o trabalho mais recente, na época, de Kazuo Ohno. Quanto custou para nós? Zero.
A Fundação que trouxe e levamos ao Sesc Consolação [em São Paulo]. Deu primeira página na Ilustrada [caderno de cultura de um important jornal]. Percebe a diferença? O
esporte profissional ocupa espaço de uma maneira muito grande. Enquanto isso a cultura não profissionalizada tem o mesmo espaço que a cultura business. Essa coisa que a
Fundação Japão, assim como muitas outras organizações internacionais nos traz, é algo extraordinário para nós. Por quê? Primeiro, a presença japonesa no Brasil é um fato
marcante do ponto de vista cultural, econômico e político, especialmente em São Paulo. Segundo, a Fundação Japão não tem interesse em trazer a cultura japonesa por ser um bom negócio. Pode até ser, mas não é o escopo principal.
Quando a Fundação Japão traz um mestre que lida com pipas, não está pensando em ganhar dinheiro. E quando ela precisa buscar interlocutores na sociedade para fazer esse
tipo de vinculação, com quem ela vai falar?

FJ: Quais são os critérios que o Sesc adota para selecionar esses eventos, como os que vêm do Japão?

DANILO: Interesse público, abrangência. Fizemos uma exposição de brinquedos japoneses há uns 10 anos, belíssimo. Veio de um museu de Kobe. Quem é que se interessaria por brinquedos tradicionais japoneses no
Brasil? Mas essa exposição fez o maior sucesso aqui. Foi para Curitiba, foi para o Rio de Janeiro e, se deixassem, a gente levava para outros lugares. Coisa fantástica.

FJ: Por que o senhor acha que a exposição fez sucesso?

DANILO: Pela qualidade, pela beleza, pelo acúmulo de informação que estava embutido ali. Vou dar um exemplo.
A mostra tinha brinquedos de várias partes do mundo. Chamou-me muito a atenção um brinquedinho que é um traço característico de culturas díspares. Sabe uma galinha
com vários pintinhos em volta, feita de papel maché ou de barro? Essa figura é comum entre índios, japoneses, tem na Rússia, África, em povos que não têm contato nenhum um com o outro. É o inconsciente coletivo: somos todos
provenientes de um lugar só. Estive no Museu Nacional de Etnologia de Osaka, um dos mais importantes do mundo.
O diretor do museu tinha muito interesse nos índios brasileiros. Primeiro porque o índios têm raízes no Oriente mais próximas do que nós. Segundo porque, hoje em dia, para aproximar as culturas, cada vez mais é preciso ir nas essências, ver que tipo de elemento mais primal está ali. E nisso os índios são muito fortes. Por isso os japoneses se interessam muito pelos índios brasileiros. Essa proximidade ajuda a definir a necessidade de ir um pouco mais
na essência e fugir do business. Quando eu falo business eu não me coloco contra o Empresariado nem contra aqueles que fazem negócio. Só que nós não fazemos isso.
  FJ: Vocês têm os seus próprios funcionários encarregados de tudo?

DANILO: O Sesc sempre se preocupou muito com a preparação dos seus recursos humanos. Todos tiveram oportunidade de fazer cursos e de ir para o exterior. Eu fui um dos pioneiros. Nos anos 70 fui para a Suíça, fazer um curso de administração no Instituto de Altos Estudos de
Administração Pública (Idheap) em Lausanne, na Suíça. De lá para cá muitos foram também para fora, para aprofundar conhecimentos na área da administração, do lazer ou da cultura em geral. Nós percebemos a necessidade de
valorizar o funcionário, de torná-lo mais apto a desenvolver os trabalhos. Existe um conceito no Brasil de que nessas áreas do social e do cultural basta ter boa vontade. Isso é um engano. São necessários profissionais que entendam
de gestão, de processos, de planejamento. O Sesc tomou há muito tempo essa atuação profissional. Essas pessoas acabam crescendo e vão assumindo novos postos. Acho que devemos ter esse tipo de proposta, mas temos que respeitar também alguém que venha de fora, para nos ajudar com uma visão nova. A valorização dos recursos humanos no Sesc é um valor não apenas falado, mas é, dentro do possível, praticado.

FJ: Como é o relacionamento do Sesc com o diretor de teatro Antunes Filho?

DANILO: No início dos anos 80, o Antunes já tinha dirigido várias coisas de televisão, de teatro, mas seu sonho era realizar um projeto de formação de atores, diretores, iluminadores, ou seja, de profissionais do teatro. Ele convenceu o Sesc a criar um projeto dentro da instituição de pesquisa teatral, em 1982. O Antunes sempre foi um homem rigoroso. Eu o chamo de um asceta do teatro. Não é o único, cada um tem seu jeito. Mas o Antunes é aquela figura disciplinada, rígida, mas de uma eficácia fantástica e de uma criatividade imensa. Ele é realmente um dos grandes, se não for o maior diretor de teatro deste país. Assumido pelo Sesc, como funcionário, passou a realizar um trabalho de formação de atores e diretores. Muitos passarem por ele, além de iluminadores, cenógrafos, figurinistas. Mais recentemente ele está com um grupo de dramaturgia também. O Sesc deu condição também para produzir a infra-estrutura, como material gráfico, cenografia, figurino. E o Antunes tem o mérito de ter descoberto a figura do Kazuo Ohno no Brasil. Ele
ajudou nisso, junto com a Fundação Japão e a família do Takao [Kusuno]. Kazuo é uma figura dentro do Sesc. Eu tinha imagens dele na minha sala, fotos minhas com ele, de cartazes que nós fizemos na época que ele veio. Kazuo é um nome revolucionário, que causou impacto nas
mais diversas platéias do mundo inteiro. Em São Paulo não ficou longe disso, graças a essa associação entre o Antunes, família Kusuno, Fundação Japão e Sesc. Todas as vezes que ele veio, veio nesse esquema [em 1986, 1992 e 1997].

FJ: A programação de arte performática do Sesc sempre tem algo de multicultural ?

DANILO: Sempre. Uma das estratégias nossas é a multiculturalidade, a variedade de tendências, o respeito a divergências. Isso significa que a gente dá espaço ao tradicional, mais antigo, como dá espaço ao mais novo, ao mais revolucionário. Há uma coisa que é um conceito
muto delicado: a transgressão. Não existe crescimento e avanço da cultura sem transgressão. Quando Picasso faz um quadro pegando o rosto de uma mulher e o fragmenta
em três dimensões diferentes e as mostra ao mesmo tempo, num mesmo quadro, ele está inovando, transgredindo.
Estou falando desse tipo de transgressão, e
existe um campo vastíssimo. Isso nas artes visuais e performáticas todas. Então essa multiculturalidade, essa variedade de propostas é respeitosa. O que quero dizer é o seguinte: o fundamento daquele projeto de bemestar diz respeito a uma questão de valorização do ser
humano merecedor do respeito dentro de um padrão de absoluta igualdade. Isso não é uma questão nem religiosa nem política. É uma questão cultural. Do ponto de vista cultural somos fundamentalmente todos iguais.

FJ: Nesse sentido, o Brasil, os brasileiros estão muito mais preparados para a Multiculturalidade?

DANILO: De certa maneira sim. É um valor nosso. A grande identidade nacional é essa multiplicidade de valores que nós temos. Isso me falou o diretor do museu de Osaka. Ele
me disse uma coisa interessante. Disse: “Olha, o Brasil é a grande nação multicultural do mundo que está crescendo e desenvolvendo para ter um papel importante na história”.
Ele dizia que a outra grande sociedade Multicultural era a americana, e que, na opinião dele, estava em decadência. Eu não teria elementos para aprofundar isso, mas ele
colocava a questão da dificuldade das diversas culturas se relacionarem lá dentro, dos guetos, etc. No Brasil, por mais problemas que Tenhamos do ponto de vista econômico e social, esse problema é muito menor.

O Sesc é uma entidade (pessoa jurídica) de caráter privado mantido principalmente pelo empresariado brasileiro do serviço e comércio por meio de uma contribuição compulsória determinada pelo decreto-lei número 9.853,
de 13 de dezembro de 1946. Cada empresa paga o tributo de acordo com sua folha de pagamento. A entidade também recebe doações e dispõe de recursos provenientes
das atividades pagas em suas unidades. O Sesc regional de São Paulo tem a maior arrecadação, com orçamento anual de cerca de 400 milhões de reais (aproximadamente US$ 187 milhões) – 40% do totalnacional. Vinte porcento do que São Paulo arrecada éredistribuído nacionalmente. O orçamento é distribuído de acordo com a necessidade de cada unidade. A programação é composta de atividades organizadas localmente e de eventos coordenados a nível regional e
nacional.

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