CENTRO
DE LÍNGUA JAPONESA

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ZENZANDO NO JAPÃO
- POR CRISTINA ROCHA
Voltar ao Japão depois de quase 10 anos me mostrou o quanto o processo
de globalização é real e rápido. Quando morei
em Kyoto pela primeira vez (de 1992 a 1993) ainda eram poucos os lugares
que usavam o inglês. No fim do dia ouvia-se o toc-toc dos geta (sandálias
de madeira) de pessoas indo aos sentô (banhos públicos).
Desta vez cheguei a Kyoto e minha primeira visão foi uma imensa
loja da Gap em Shijo dori e um Starbucks Cafe em Karasuma dori.
Estávamos em alto verão em agosto de 2000 e minha segunda
visão foram as Kogyaru - garotas adolescentes que se bronzeam artificalmente,
pintam o cabelo de loiro e ficam em grupos pelas ruas com suas minisaias
e seus saltos plataformas de mais de 20 cms! Quando eu passei um ano em
Kyoto estudando cerimônia do chá em 92/93, a cidade - o berço
da aristocracia japonesa - era a mais conservadora do país.
Depois de alguns dias me acostumando com a nova
face da cidade percebi que muito da velha Quioto ainda estava lá.
Fui ao Japão com uma bolsa de Fellow da Fundação
Japão para fazer minha pesquisa sobre o Zen e sua expansão
no Ocidente e em particular no Brasil. Já na primeira semana
fiz um retiro num templo Zen e lá estavam muitas das regras de
etiqueta e formalidade que eu havia aprendido anteriormente. A formalidade
também foi fundamental para marcar as entrevistas. Logo percebi
que antes de marcá-las deveria mandar um fax com as perguntas,
meu currículo e cartão de visita. Mas ainda assim ficou
patente a antiga característica, tão comentada por quem
vai ao Japão, de que os japoneses não se sentem à
vontade quando têm que responder à perguntas individualmente.
Meu projeto para os quatro meses da bolsa era entrevistar os missionários
Zen japoneses que haviam trabalhado no Brasil desde os anos 50, os monges
e monjas brasileiros sem ascendência japonesa que estavam treinando
no Japão e o encarregado do Brasil na sede da escola Sôtô
Zenshû. Como boa antropóloga, eu também desejava
fazer 'observação participante', isto é, viver
num mosteiro e num templo para entender melhor o papel do Zen no Japão
contemporâneo.
Através de indicação de um monge brasileiro, escolhi
o mosteiro Bukkoku-ji, localizado no mar do Japão, em Obama-shi.
Lá fiz um retiro de 7 dias, onde acordava as 4 da manhã
para meditar e ía dormir às 9 da noite, depois de 11 sessões
de meditação de 40 mins cada. Vida de antropóloga
não é fácil, mas é intensamente estimulante!
Como templo, escolhi passar uma temporada em Kirigaya-ji, um templo
em Tóquio indicado por ser uma ponte entre o Zen no Japão,
nos Estados Unidos e no Brasil. Kuroda rôshi, responsável
por Kirigaya-ji, é irmão do falecido Maezumi rôshi,
do Los Angeles Zen Center onde a monja brasileira, Coen sensei, treinou
por muitos anos.
Estas duas experiências foram fundamentais para a minha compreensão
das diferenças entre viver num templo e num mosteiro. Enquanto
o templo dedica-se à seus fiéis com cultos funerários
e memoriais e o monge responsável é casado com filhos,
o mosteiro é o lugar onde monges e monjas são celibatários
e treinam o zazen (meditação). Percebi que um enorme rio
separa estes dois mundos: de um lado o mundo da devoção
e do homem comum japonês, e de outro o mundo da meditação
e introspecção.
Depois de compreender esta diferença fundamental, ficou claro
para mim a dificuldade que existe no Brasil (e em todos os países
que possuem uma comunidade japonesa) de unir os dois lugares num só.
Enquanto a comunidade japonesa espera que o templo seja um lugar de
devoção como é no Japão, os não-japoneses
vão ao templo esperando o zazen, que seria mais apropriado num
mosteiro.
Com todos os dados colhidos no campo graças ao apoio incondicional
da Fundação Japão, que me deu as melhores condições
de trabalho possíveis, eu estou agora no processo de escrever
a tese de doutorado. Realmente, sem esta bolsa, eu teria adquirido conhecimento
somente através dos livros, o que nunca é a mesma coisa
que a experiência direta, tão cara ao zen.
PS: Se você quiser saber mais sobre
o Zen no Brasil ou meu trabalho, veja o site http://www.uol.com.br/cmrocha
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