CENTRO DE LÍNGUA JAPONESA

  
  RODA DE LEITURA COM FERNANDO MORAIS


A Fundação Japão, com a colaboração da Companhia das Letras, promoveu em seu espaço cultural, no dia 13 de dezembro, uma Roda de Leitura com Fernando Morais sobre seu livro "Corações Sujos". Morais foi um dos convidados a visitar o Japão dentro do Programa de Convite a Personalidades Culturais da Fundação Japão e debateu com o público algumas das questões fundamentais do livro, que revela a história da Shindo Renmei, organização secreta que aterrorizava imigrantes japoneses no Brasil que acreditavam na rendição do Japão, no fim da Segunda Guerra Mundial.

Makegumi x Kachigumi

O episódio envolvendo a enorme colônia japonesa no Brasil, estimada em mais de 200.000 pessoas no período 1939-1945, só se tornou conhecido graças ao importante livro de Fernando Morais.
"Corações Sujos" era o nome dado aos Makegumi, ou derrotistas, aqueles que acreditavam na verdade, isto é, que o Japão havia se rendido às forças aliadas em agosto de 1945, marcando o fim da Segunda Guerra.
Kachigumi, ou vitoristas, eram os que não acreditavam que o Japão, que em 2600 anos jamais perdera uma guerra, tivesse se rendido. Eles fundaram a Shindo Renmei, ou Liga do Caminho dos Súditos, uma organização secreta militarista e seguidora das tradições japonesas. Entre as duas facções, dividia-se a colônia japonesa no Brasil. A maioria apoiava a Shindo Renmei, que durante um ano foi responsável pela morte de 23 imigrantes, e 150 feridos. O livro reconstitui a história deste curto porém intenso episódio da vida dos imigrantes japoneses no Brasil.

Roda de leitura

Fernando Morais iniciou a noite lendo trechos de sua obra, abrindo depois para um debate livre sobre o tema. Ao ser indagado sobre como nasceu a obra, Morais explicou que o ponto de partida surgiu quando ainda realizava pesquisas sobre Assis Chateaubriand para escrever sua biografia. Uma senhora nissei, que tinha tido um romance com o Chatô foi entrevistada pelo jornalista, onde ela contou que seu pai tinha sido membro da Shindo Renmei e que tinha sido preso. Morais logo percebeu o desconforto dessa senhora quando lhe perguntou sobre detalhes da organização secreta, fato que despertou maior curiosidade para aprofundar o assunto.
Reforçado com o incentivo da Companhia das Letras, nasceu o projeto de publicar um livro sobre, nas palavras do autor, "esse lado obscuro de um episódio que tinha perturbado muito mais profundamente a colônia japonesa do que parecia ser à primeira vista". Além do ineditismo do assunto que atrai um jornalista, desvendar a história da Shindo Renmei condizia com o que Morais sempre buscara: "contar a história que não nos foi contada nos bancos da escola".
Para ele, contrariamente ao que muitos pudessem imaginar, a caça aos derrotistas não foi um acontecimento particular da colônia japonesa em que deveria excluir qualquer intervenção da parte dos brasileiros não pertencentes dessa comunidade. De fato o episódio só pôde ter surgido em decorrência do contexto repressivo em que a sociedade brasileira fora submetida durante a segunda guerra mundial, sob o governo getulista.

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