CENTRO DE LÍNGUA JAPONESA

  
  O DESVENDAMENTO DA GUERRA VIVENCIADA PELA MINORIA JAPONESA



Passaram-se sete anos do cinqüentenário (1995) do fim da Segunda Guerra Mundial.

Ao tentar fazer uma retrospectiva da Guerra, não basta os japoneses do pós-guerra pensarem exclusivamente pela ótica da desilusão daqueles que morreram, incluindo as vítimas das bombas de Hiroshima e de Nagasaki.

Quando se questiona sobre a “responsabilidade de guerra”, não se deve prender à extensão da catástrofe da guerra, mas é preciso atentar para a sua diversidade.

Por exemplo, qual será a imagem que os japoneses do pós-guerra têm da experiência dos conterrâneos que emigraram aos Estados Unidos e ao Brasil no período anterior à Guerra?

É conhecida a história dos descendentes nikkei dos Estados Unidos que após a eclosão da guerra com o Japão foram forçados a viver num campo de concentração. Porém, quando se fala na sociedade nikkei do Brasil, o atrito entre os vitoristas e os derrotistas é visto como uma mera curiosidade e na história do Japão não passa de uma mancha na sua margem.

Apesar disso, atualmente, no Brasil há um movimento intenso de resgate da história sobre a trajetória de vida dos nikkeis. No capítulo entitulado “O segundo brinde”, da revista “Literatura do Nikkei do Brasil” (novembro de 2000, fascículo nº 6), de Arikawa Masuda, há uma comovente história sobre um certo nikkei oprimido pelo governo repressivo de Vargas, que encontra alívio psicológico ao fazer amizade com um médico de origem italiana muito expansivo. Para a desenvoltura de uma história comovente, a pré-condição é ter uma realidade terrível e sem nexo.

Agüentando as difamações e as ameaças improcedentes, tendo a liberdade de ir e vir e de expressão cerceadas, assim mesmo os descendentes nikkei precisavam continuar sobrevivendo no Brasil. Pode-se falar o mesmo dos imigrantes alemães e italianos. Os japoneses do Brasil não estavam rodeados somente por brasileiros de uma única origem. Com eles estavam os oriundos de países considerados inimigos, vivendo o mesmo drama de guerra.

Como prova de que o cinqüentenário do pós-guerra se constitui num marco, no Brasil, para esclarecer a situação política do período da Segunda Guerra Mundial, os arquivos do Deops (Delegacia Especial de Ordem Política e Social) foram abertos e seu conteúdo está sendo divulgado. Os arquivos não se restringem somente aos dados dos imigrantes das tríplice aliança. Estudantes, intelectuais e grupos comunistas, inclusive judeus que emigraram da Polônia e da Rússia, todos foram investigados pela polícia secreta que era semelhante à polícia repressiva do Japão.

Para os japoneses contemporâneos, este fato não deve ser finalizado como um passado distante que ocorreu num país longíquo. Ver o estrangeiro como um possível espião é uma tendência negativa do nacionalismo racial que vem fortalecendo no Japão pós-derrota. Hoje, os japoneses não devem repetir com os estrangeiros a amarga experiência vivida pela colônia nikkei do Brasil e sim fazer um auto-exame desse sofrimento e uma contínua reflexão do fato.

Nota editorial

O professor Masahiko Nishi é professor de literatura comparada da Universidade Ritsumeikan de Kyoto e esteve este ano no Brasil, de maio a julho, como professor visitante da Universidade de São Paulo, retornando ao Japão no final de julho. O seu artigo foi escrito em pleno verão japonês, em meio à comemoração do fim da Segunda Guerra Mundial, onde uma vez ao ano todo o Japão relembra a Guerra e a explosão da bomba atômica em Hiroshima e em Nagasaki.

Recebemos do professor o ensaio acima como uma lembrança de sua estada no Brasil.

Masahiko Nishi
(Professor da Universidade de Ritsumeikan-Kyoto e Professor Visitante da USP)

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