CENTRO DE LÍNGUA JAPONESA

  

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ARTIGO COMPLETO Japonês
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foto: Nikkey Shimbun


Prof. Tai Suzuki


Neste texto, prof. Suzuki apresenta um dos aspectos de sua pesquisa lingüística, vagando e divagando livremente no meio da literatura clássica japonesa. Apresentamos a versão compacta de sua palestra proferida no dia 21 de março no Espaço Cultural da Fundação Japão, editada para o leitor do “Aquarela”, na esperança de que sirva de convite para se adentrar no fascinante mundo da literatura clássica japonesa.
Tai Suzuki, professor de Vernáculas-Língua Japonesa da Universidade de Tokyo, esteve no Brasil a convite da Fundação Japão, palestrando na UFRJ, na USP e na UFRGS no período de 12 a 22 de março do corrente ano.

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A língua japonesa deve ser uma das poucas línguas no mundo que permite que um leitor moderno entenda as obras clássicas escritas há mais de mil anos.

Se delimitarmos a literatura clássica no Período Heian (794-1189), pode parecer que quase todas as obras literárias daquele período versam sobre a vida na corte imperial. Entretanto, os gêneros são variados: encontramos contos ou narrativas (“monogatari”) , coletâneas de poemas (“kashû”), assim como diários. Neste ensaio, gostaria de tomar essas obras clássicas e examiná-las sob o aspecto de diferenças existentes, não em termos de seu conteúdo, mas de palavras utilizadas.

1. Comparação de Vocabulários nas obras “Man’yôshû” e “Kokin-Wakashû”

A característica de cada obra clássica se manifesta através do tipo de vocabulário usado. Vamos selecionar algumas palavras típicas de cada uma das duas obras e comparará-las. O número total das palavras usadas em cada uma delas apresenta uma proporção de cerca de 5 para 1. Por exemplo, as palavras “ume” (ameixa, flor de ameixeira) e “sakura”(cerejeira, flor de cerejeira) aparecem em ambas as obras. A freqüência com que elas aparecem é , proporcionalmente, de 115:23, e de 17:11. Assim, enquanto que “ume” aparece numa razão de 5:1, correspondendo à média da proporção, a palavra “sakura” apresenta uma proporção maior em “Kokin”. Sendo assim, pode-se considerar que “sakura” é um vocábulo característico da “Kokin”.

Por outro lado, há casos em que se nota o uso de termo de um determinado domínio semântico com freqüência apenas numa única coletânea. Vamos procurar identificar as palavras características do campo semântico de cada uma das coletâneas, como sendo peculiares a uma ou outra coletânea. (A lista dos vocabulários pode ser encontrada na “homepage” da Fundação Japão).

Examinando a lista, podemos notar, por exemplo, que na “Kokin” se encontram muitos nomes de plantas e insetos, fazendo supor que flores e insetos se relacionam à sensação de estações do ano. Enquanto que na “Man’yô” há muitas expressões ligadas ao mar. Isso nos sugere que os aristocratas do Período Heian tinham sua área de atuação limitada às imediações da Kinki (perto da capital imperial), não tendo o costume de se deslocarem para assumir cargos oficiais em regiões distantes. Da mesma forma, podemos perceber que os poetas da “Man’yô” eram provenientes de camadas sociais mais variadas, inclusive “sakimori”, soldados que guardavam territórios longínquos. Ainda, a ocorrência mais freqüente de palavras ligadas ao tempo cronológico na “Kokin” denota a noção do tempo mais aguçada. E a abundância observada na “Man’yô” de palavras ligadas ao relacionamento humano nos indica claramente que todos os aspectos do rela-cionamento humano passaram a ser temas para fazer poemas.

 

2. Palavras em Poemas e Palavras em Prosas

Percebe-se que a coletânea de poemas (“Kokin” e “Gosen”) contém mais nomes de plantas ou de fenômenos naturais enquanto que na prosa (“Taketori-Monogatari”, “Ise-Monogatari”, “Tosa-Nikki”, “Kaguerô-Nikki”, “Makura-no-Sôshi”, “Genji-Monogatari”, “Murasaki-Shikibu Nikki”, “Sarashina-Nikki” e “Ookagami”), nota-se a predominância das palavras que exprimem a situação e pensamento
e/ou sensação.

3. “Literatura Matutina” e “Literatura Noturna”, Literatura de “meia-estação” (primavera e outono) e Literatura de “verão-inverno”

A classificação acima considera a peculiaridade do vocabulário à luz das obras e do gênero literário. Entretanto, o enfoque inverso também é possível: pode-se caracterizar uma obra destacando determinadas palavras.

Se verificarmos, em cada obra, a freqüência com que aparecem as palavras que indicam a faixa horária noturna em contraposição às palavras que exprimem a faixa horária da manhã, podemos perceber que as obras do Período Heian (principalmente coletâneas de poemas e de narrativas) pertencem ao grupo da “literatura noturna”.

Da mesma forma, podemos prestar atenção nas palavras relacionadas às estações do ano. Verificando o grau de aparecimento, em cada uma das obras, das palavras que se relacionam à primavera e ao outono em contraposição às palavras relacionados ao verão, sabemos que as obras do Período Heian (especialmente coletâneas de poemas e de narrativas) adotam o modelo “primavera e outono”.

4. Comparação das Obras Clássicas baseada na Classificação Semântica

Sob o ponto de vista da semântica, classificamos o vocabulário do japonês moderno, conforme seu sentido, para cada palavra que consta da “Tabela Comparativa do Vocabulário Clássico” e atribuímos números da “Tabela de Classificação Lexicológica”.

Embora seja difícil citar em termos de números, podemos dizer que as referências às “estações do ano”, de conteúdo abstrato, são mais freqüentes nas coletâneas de poemas e aparecem menos nas obras em prosa. O “passado” é eminentemente freqüente em “Ise-Monogatari” e pouco citado em “Tsurezure-gusa”. Além disso, como obras que relatam fatos ocorridos, destacam-se as crônicas “Ookagami”, diário “Tosa-Nikki” ou o ensaio “Hôjô-ki”, enquanto que “Ise-Monogatari” se sobressai no uso de “homem e mulher”, estes na qualidade de atores da ação humana, e na coletânea “Man’yô” aparece mais o casal (marido e mulher). Na comparação quanto ao uso de nomes próprios, as coletâneas “Man’yô” e “Kokin” usam eminentemente os topônimos contrastando-se, marcantemente, com o uso de nomes próprios, bem mais frequentes na “Taketori-Monogatari” e no “Ookagami”.

Dessa maneira, através da comparação lexicológica é possível evidenciar as características das principais obras clássicas da literatura japonesa. Esse método pode também ser aplicado na comparação dos tomos da coletânea de narrativas “Konjaku-Monogatari”, mas deixaremos para a próxima oportunidade.

foto: divulgação

Profª. Tae Suzuki e Prof. Tai Suzuki (esq. para dir.)
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