CENTRO DE LÍNGUA JAPONESA

  
 

Em 2002 foi criado um novo curso no Japão pela The Japan Foundation: o mestrado de um ano na área de ensino de língua japonesa destinado aos orientadores.

Aquarela colheu depoimentos dos três brasileiros que tiveram contato com o curso.

» Cristina Sanae Matsuzake (Turma de 2001)
» Cristina Maki Endo (Turma de 2002) em curso
» Alexandre Augusto Varone de Morais (Turma de 2003) iniciará o curso em setembro

CLJ: Sanae, conte-nos como foi a sua experiência como a primeira professora brasileira a ingressar no recém-inaugurado curso de mestrado.


Cristina Sanae Matsuzake

Sanae: Foi simplesmente maravilhosa!! Conheci professores ótimos e aprendi métodos e técnicas diferentes para aplicar no ensino da língua japonesa. Atualmente na Ásia, tem se dado muita força no ensino de língua japonesa e para ter uma idéia, na Coréia existem 948.104 estudantes de língua japonesa enquanto que no Brasil, a cada ano vem diminuindo o número de estudantes que hoje conta com 16.678 estudantes. Na Indonésia, Tailândia, Coréia e países vizinhos, é ensinado a língua japonesa desde o colegial até o nível universitário em diversas escolas. Levei um susto ao saber da realidade do ensino da língua japonesa no mundo afora. Gostaria de compartilhar esta maravilhosa experiência com outros professores também. Estou à disposição para explanar sobre esta bolsa a quem desejar.

CLJ: Sanae, como foi o curso, a equipe de professores, os colegas de classe? Valeu a pena? Correspondeu à sua expectativa?

Sanae: Com relação ao curso em si, tinha o apoio de três Instituições: O Centro Internacional de Língua Japonesa da Fundação Japão, A Universidade GRIPS que coferiu o grau de pós-graduação e o Instituto Nacional de Língua Japonesa. Estudei nessas três Instituições com professores de vanguarda no ensino da língua japonesa. Além das aulas, podia participar de palestras e workshop realizados no arquipélago japonês e pude trocar idéias com inúmeras pessoas da área. Consegui aumentar a minha rede de contatos (network) da língua japonesa. Mesmo retornando, tenho me comunicado com as pessoas.

Ao todo éramos em oito estudantes e a grande maioria era da Ásia. Eu era a única descendente de japoneses e fiquei impressionada com o alto nível de japonês dos meus companheiros. Foi um aprendizado de vida também. Senti na pele a adversidade cultural pois era a única latino-americana no meio de pessoas asiáticas e metade delas da religião islâmica. Foi justo no período em que meus amigos no Brasil assistiam a novela "O Clone".

CLJ: Maki, como a segunda brasileira no curso ainda em andamento, como está sendo a experiência? Tem correspondido à sua expectativa?


Cristina Maki Endo

Maki: Realmente não é fácil fazer o mestrado em um ano. É assistir às aulas que valem créditos mais a sua pesquisa de mestrado. Balancear esses dois itens é um grande desafio. Mas o lado positivo é que muitos temas discutidos em sala de aula podem ser utilizados na sua pesquisa. Em menos de um ano, meu conhecimento aumentou bastante. O curso, no geral, está sendo mais do que eu esperava.

CLJ: Como entraram em contato com a língua japonesa e porque escolheram o japonês para estudar, lecionar ou ser tradutor?

Sanae: Como os meus pais são japoneses e eles sempre quiseram que falássemos o japonês, aprendemos naturalmente a linguagem falada. O meu pai dizia que acabaríamos aprendendo o português só de sair de casa e por isso era para utilizar o japonês o máximo que pudesse em casa. Um dos grandes fatores que me incentivaram e ajudaram a prosseguir os estudos de japonês, foi a grande vontade de querer comunicar com as minhas avós que moravam no Japão. Elas sempre enviavam cartas em japonês e queríamos contar–lhes o que fazíamos no Brasil. A minha avó paterna enviava bonecos de pano feitos a mão e os meus tios nos enviavam "mangá" todos os meses. Naquela época levava cerca de quatro meses para chegar um exemplar e ficávamos aguardando ansiosos para ler a continuação da história.

Quanto aos meus estudos de japonês propriamente dito, comecei a freqüentar o curso de japonês desde os seis anos de idade concluindo com dezesseis anos de idade. Ia à escola brasileira, e depois do almoço, ia ao curso de japonês. Aprendi na escola japonesa não só a língua como também a cultura japonesa através dos cursos de caligrafia, origami, música, artes, etc. Aos dezesseis anos comecei a ajudar a professora e recebi muitas dicas de como dar aulas. Quando peguei turmas avançadas percebi que não estava preparada para lecionar, e acredito que foi o que me impulsionou a fazer o curso de Formação para professores de japonês do Centro de Estudos da Língua Japonesa (Fukyu Center 1988) e posteriormente o curso de terceiro grau na área de Educação (Pedagogia USP 1993). E cá estou eu lecionando no Centro de Estudos da Língua Japonesa.

Maki: Meu contato com a língua japonesa é desde o berço. Minha primeira língua é o japonês. Comecei a falar o português depois de entrar na pré-escola. Como professora, é sempre gratificante ver uma pessoa aprendendo e aumentando o conhecimento. E o japonês, de certa forma, é minha língua materna e acho importante compartilhar o que eu sei com aqueles que querem saber mais.
Alexandre: Meu contato com o japonês começou no 2º. ano da universidade. Um dia, um amigo nikkei me mostrou um livro de ensino de japonês para crianças do nível elementar no Japão. Deparar-me com os caracteres orientais foi literalmente um caso de paixão à primeira vista. Comecei a estudar quase que em seguida, primeiro sozinho e depois em escolas. Também comecei a praticar caratê 6 meses depois de iniciar o estudo de japonês, e o contato com a filosofia zen só fez aumentar o meu interesse pela cultura japonesa. O fato de estudar japonês me possibilitou enxergar as coisas também sob a perspectiva oriental, algo muito interessante. Este meu caso de amor à língua e cultura japonesas completou 19 anos em 2003, e sinto que vai me acompanhar pelo resto da vida.

Sobre o trabalho como tradutor, eu me formei como engenheiro e exerci a profissão por 11 anos. Ao longo desse tempo vivenciei o uso do japonês na área técnica, e por gostar de tradução e interpretação os caminhos naturalmente acabaram se encontrando.
Comecei a ensinar a língua japonesa no fim de 1998, mas sempre tive interesse pela educação. Quando era universitário trabalhei por 5 anos no antigo programa de alfabetização de adultos da Prefeitura de São Paulo, e isso foi uma experiência riquíssima.
Ensinar é uma tarefa árdua, mas a luz que emana nos olhos de quem aprende nos proporciona um profundo e raro sentimento de realização.
Como professor de japonês estou às voltas com o Amor, a Luz e a Realização. Dá para perceber por que estou trabalhando com isso!

CLJ: Conte-nos o que você aprendeu no curso que poderá aplicar no ensino da língua no Brasil ou na escola como professora?

Sanae: Nossa! Tínhamos que entregar trabalhos todas as semanas. No começo levei um susto com o ritmo dos estudos, mas logo você acaba se acostumando a escrever e a ler. Eu me formei em Pedagogia em 1993 e fazia oito anos que não escrevia tanto. Mas enquanto a massa encefálica está boa acho que devemos estimulá-la o máximo possível. A única questão pendente quanto a este curso de mestrado é a de que ainda não foi possível revalidar, ou seja formalizar legalmente o curso que fiz no Japão. Estou correndo atrás de informações para revalidar junto ao MEC - Ministério da Educação e Cultura. Caro leitor do Aquarela: Achei que seria importante avisá-los sobre isso.
Maki: Aprendi o quão importante é refletir de forma objetiva. Quando um aluno não tem um desenvolvimento no aprendizado, a maioria dos professores culpa o próprio aluno por não estudar. Às vezes pode ser que o aluno não goste da matéria, mas há vários outros fatores para um aluno não conseguir acompanhar as aulas como: não saber como estudar, o professor não conhece o perfil do aluno ou não perceber os erros cometidos em sala de aula, etc. No curso, aprendemos como podemos melhorar nossas aulas, observando objetivamente nossos erros. A minha vontade é aplicar o que aprendi e passar esses conhecimentos aos outros professores.

CLJ: O que você diria àqueles que gostariam de fazer este curso?

Sanae: Acredito que é uma grande chance que está se abrindo para o Brasil em termos de Ensino da Língua Japonesa. O contato com as pessoas do mundo todo nos fazem pensar de forma globalizada. Como a língua é viva, acho extremamente importante corrermos atrás das novidades e também buscar uma constante reciclagem, pois é de nossa responsabilidade fazer com que o aluno se distancie completamente ou se interesse apaixonadamente pela língua japonesa. O curso de mestrado no ensino da língua japonesa independe da área de formação no terceiro grau. No curso de 2001, havia professores com formação na área de engenharia, processamento de dados e política internacional. Se você tem menos de 40 anos e tem vontade de estudar, fica aqui um convite amigo. Vale a pena. Pretendo divulgar um pouco do que aprendi nos Encontros e Seminários que estou programando. Deixo aqui um convite aberto.

CELJ: (11) 5579-6513
E-mail:
fcenter@celj.com.br
HP:
www.celj.com.br

Maki: Como eu já disse no início do bate-papo, não é fácil fazer o mestrado em um ano. Mas vale a pena, se você já tem um tema definido no campo do ensino da língua japonesa e quer pesquisar em um ano. Além do mais, a Fundação Japão recebe estagiários de vários países e é uma oportunidade única para trocar informações e idéias com professores de outros países.

CLJ: Alexandre, tendo duas “senpai” (antecessoras) como modelo e informantes, o que você espera deste curso?


Alexandre Augusto Varone de Morais

Alexandre: O fato de ter duas “senpai” como modelo é muito importante, pois posso me orientar fundamentado na experiência que elas tiveram neste programa.

Ao mesmo tempo, há também a grande responsabilidade de seguir adiante no caminho que elas já desbravaram, e de acrescentar a minha parcela de valor ao que já foi realizado por elas como representantes brasileiras.

A oportunidade de participar deste programa é inestimável e fundamental para a concretização de tudo que planejo para o futuro em termos do ensino da língua japonesa. Envidarei todos os esforços para fazer jus à confiança que me foi depositada.

CLJ: Alexandre, tem alguma dica ou conselho para aqueles que acham a língua japonesa um “bicho de sete cabeças”?

Alexandre: É natural sentir dificuldade para estudar uma língua de características tão diferentes do português, e cuja cultura muitas vezes tem pontos de vista completamente opostos aos nossos. Porém, vale a pena lembrar que uma dificuldade é também um convite à descoberta e à superação.
O idioma e cultura de um povo estão diretamente conectados. Para falar japonês é preciso pensar em japonês. Conhecer melhor o modo de pensar e viver dos japoneses pode estimular bastante o aprendizado do idioma.

Perseverança é uma palavra que talvez soe pesada demais para sociedade atual, mas é um conceito que não pode faltar se alguém quiser aprender algo a fundo na vida.
Mas acima de tudo, procurar aplicar o que aprendeu. Escute, escreva, fale, cante, exponha-se ao ambiente japonês, seja via internet, em associações de províncias, empresas, clubes ou escolas.
Sem medo de errar e aprendendo com os erros, num belo dia a língua da terra do sol nascente passará a fazer parte da sua vida...

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