CENTRO DE LÍNGUA JAPONESA

  

 

Não sei ao certo se devo dizer que é muito ou pouco tempo, mas estou no Brasil há um mês e meio. Antes de vir para cá estive ocupado com os inúmeros afazeres acadêmicos e por conta disso não pude me ater aos preparativos que a viagem requeria. O máximo que fiz foi passar os olhos num guia turístico e ler um livro de relatos pessoais sobre o Brasil que ganhei do Prof. Junzô Kawada, um colega de trabalho. Ou seja, pisei em solo brasileiro praticamente como uma “folha em branco”.

Tentando me convencer de que a falta de conhecimento sobre o Brasil poderia me proporcionar uma experiência de obsevar os fatos sem idéias pré-concebidas, decidi que, na medida do possível, iria vivenciá-los o máximo que pudesse. Apesar de não falar nada em português e desconhecer a geografia local, arrisquei-me a aventurar sozinho. No dia em que cheguei em São Paulo comprei um mapa e no dia seguinte comecei a andar de metrô e caminhar pela cidade. Fui também conhecer a cidade de Santos e a de Aparecida do Norte de ônibus. Aproveitando a chegada de um amigo do Japão fomos até Ouro Preto e Congonhas. Numa outra oportunidade fui ao Perú e reconheço que exagerei, mas acabei esticando a viagem para a cidade de Lima, Cuzco e Machu Picchu. Tive também a oportunidade de conhecer a cidade de Assis, no interior de São Paulo, por ocasião do Encontro Nacional de Língua, Literatura e Cultura Japonesa 1. Com exceção da sexta feira, dia em que ministro aula no Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo, posso dizer que praticamente todos os dias tenho ido a algum lugar.

Nessas minhas andanças não pude deixar de notar a diferença entre o Brasil e o Japão. A começar pelas estações do ano, que são opostas, notei também que a nossa sombra se projetava para o sul, fato que é mais que natural para quem vive no hemisfério sul. Porém, confesso que levei um tempo para me acostumar com isso. Quanto à direção dos carros na pista não me causou espanto porque já sabia que os carros corriam pela direita, ao contrário do Japão. O que realmente me saltou aos olhos foi a diversidade de pessoas quanto à cor de pele, a altura, a vestimenta, o comportamento, ou seja, a multiplicidade em todos os aspectos. A Avenida Paulista deveria ser um equivalente ao centro empresarial de Marunouchi em Tóquio, no entanto é completamente diferente.

Maru-nouchi é um lugar em que a maioria das pessoas se veste com tons acinzentados enquanto que na Av. Paulista as pessoas parecem competir entre si para mostrar sua individualidade. Há um nítido contraste entre a uniformidade e a diversidade. A diversidade pode ser evidenciada por exemplo entre as mansões do bairro do Morumbi e as inúmeras favelas espalhadas na periferia que denunciam a diferença brutal entre ricos e pobres. No Japão, não temos tamanha disparidade social. Diante desses fatos, questiono-me se a diversidade e a uniformidade não seriam expressões da desigualdade e da igualdade e minhas reflexões sobre esse assunto vão se desdobrando cada vez mais.

Uma vez que minhas reflexões se ampliam, começo a buscar novos parâmetros de comparação. Não são muitas as cidades que conheci, mas dentre aquelas que conheço que são Paris, Shangai, Seoul e recentemente Lima e, também levando em consideração aquelas de que ouvi falar, tenho a impressão de que a sociedade japonesa possui uma característica singular. Ela é uniforme, mas em compensação há um alto grau de igualdade social o que proporciona liberdade e segurança. O orgulho de possuir tais características substitui o antigo patriotismo.

No entanto, não caberia dizer que o singular do Japão é exatamente procurar questionar-se sobre a sua singularidade? Será que os brasileiros também buscam suas particularidades? O Brasil e o Japão localizam-se em lados opostos do planeta, e se por um lado um deles é continental, o outro não passa de um pequeno arquipélago. Nesse período de um mês e meio, tudo no Brasil parece ser contrário ao Japão e, para um especialista da história do pensamento japonês, essas diferenças são extremamente estimulantes. Meus sinceros agradecimentos à Fundação Japão e ao Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo que me proporcionaram a oportunidade de viver essa experiência.

  Professor Toshitada Kitsukawa é docente da Faculdade de Direitos da Universidade de Kanagawa e está no Brasil de agosto a outubro para lecionar, como professor visitante, “O Pensamento e a Culturada Era Edo”, no Departamento de Letras da Universidade de São Paulo.  


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