Introdução .
Texto de Walter Hugo Khouri .
Texto de Lúcia Nagib .
Pesquisadores .
Revistas .
Filmes jap. que participaram de Festivais .
Onde encontrar filmes japoneses .
Bibliografia .
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INFLUÊNCIAS DO
CINEMA JAPONÊS NA CONCEPÇÃO CINEMATOGRÁFICA
DE DIRETORES BRASILEIROS
Texto de Walter Hugo Khouri(*)
A convivência de aficcionados brasileiros com
o cinema japonês começou no final da década de quarenta,
com as exibições que se realizaram no cine São
Francisco, situado atrás da Faculdade de Direito de São
Paulo, onde alguns filmes passavam até sem legendas, fato que
não afastava os espectadores paulistas, fascinados com a novidade.
Esses espectadores eram jornalistas, críticos, jovens universitários
e intelectuais amantes de cinema, que imediatamente descobriram na produção
japonesa um dos pontos altos da criatividade na sétima arte.
Foi uma revelação marcante, que permitiu que através
das décadas de cinquenta, sessenta e até parte de setenta,,
o hábito de frequentar cinemas japoneses (que chegaram a ser
quatro, exibindo dezenas de filmes) passasse a ser uma assiduidade semanal
para os paulistanos interessados na produção nipônica.
Foi assim que tomamos conhecimento, maravilhados, com o cinema de YASUJIRO
OZU, HEINOSUKE GOSHO, MIKIO NARUSE, BUNTARO FUTAKAWA, TEINOSUKE KINUGASA,
TOMU UCHIDA e muitos outros. Um cinema de incrível variedade
e altíssimo nível de criatividade de seus cineastas de
primeira linha, que a todos impressionou e marcou. Eu, pessoalmente,
lembro-me, entre outras coisas, da forte emoção que me
causaram VIDA DE ARTISTA de Buntaro Futakawa e O CRIME DA QUINTA de
Kinugasa, ainda ao tempo das primeiras exibições, que
davam uma amostra de cinema de excepcional qualidade formal e temática,
com perfeito acabamento técnico, plástica inigualável
e atores soberbos.
Mas foi a descoberta do cinema "intimista"japonês, o
cinema dos já citados Naruse, Ozu, Gosho, de Hideo Ohba e muitos
outros, assim chamado por abordar temas de vida cotidiana, familiar
ou individual, relacionados com os problemas e fatos comuns da existência
das pessoas de todas as classes no seu dia a dia que marcou de forma
especial, fortemente, muitos dos espectadores brasileiros (que no começo
eram apenas alguns, perdidos na platéia entre os elementos da
colônia, mas logo tornaram-se um número ponderável),
vindo posteriormente a exercer uma influência sutil e inconsciente
na obra de alguns daqueles espectadores que mais tarde se tornaram cineastas.
É importante notar que essa influência, só mais
tarde verificada, veio diretamente do contato dessas pessoas com as
obras exibidas nos cinemas paulistas, e não dos filmes que começaram
a ganhar fama para o cinema japonês nos Festivais Internacionais
a partir de 1950, como RASHOMON e OS SETE SAMURAIS de Akira Kurosawa
ou A VIDA DE O'HARU e CONTOS DA LUA VAGA APÓS A CHUVA de Kenji
Mizoguchi e outros, obras com forte presença de elementos exóticos
e típicos, geralmente ambientados em épocas passadas,
os chamados filmes "de costume" ou "de samurai",
com música , vestimentas, cenografia e outras características
de períodos mais antigos, com personagens nobres, distanciados
de certa forma da temática e da estrutura do cinema intimista
mais autêntico, que tanto nos impressionava e ao qual não
tinha acesso a maioria dos grandes centros cinematográficos de
todo mundo, que recebiam sua dose de cinema nipônico diretamente
de Veneza e Cannes. Nesse sentido, a cidade de São Paulo teve
um grande privilégio e a fortuna de proporcionar aos seus cinéfilos
a visão dessas obras-primas, já que era, e é, a
maior cidade "japonesa" fora do Japão.
No que se refere ao meu cinema, muitas vezes apontado como o maior exemplo
dessa influência, devo dizer que ela se processou, como já
disse, de forma quase inconsciente e muito sutil, tendo sido notada
primeiramente por outros, antes que eu já tivesse a noção
desse fato, através da percepção de dados de estilo,
de ritmo e de abordagem de certos problemas, além do "tom"
intimista e existencial presentes em muitas das minhas obras. Ao verificar
essas observações de outros sobre o meu próprio
trabalho pude constatar que era um fato verdadeiro. Eu realmente "absorvera"
muito do que o cinema japonês e o intismimo de seus mestres me
transmitiram através dos anos, e isso era possível de
verificar em diversos filmes, tanto os branco-preto como os coloridos,
posteriores a 1970. Eram características de "timing",
de composição, de trabalho de câmera, de plástica,
de cor, de montagem, de assunto e de atmosfera, muito perceptíveis
às vezes. Esse é um fato que muito me orgulha, principalmente
por ter sido uma "absorção"e não uma
influência voluntária ou o segmento de um modismo, como
soe acontecer.
Um pequeno número de outros cineastas também sofreu, de
algumas forma e em níveis diversos, certa influência do
cinema nipônico. Poderia citar principalmente a Carlos Reichenbach,
que é um grande admirador da chamada "nouvelle vague"
japonesa, surgida a partir dos anos sessenta, com os vigorosos filmes
de Yoshishigue Yoshida, Shoei Imamura, Nagisa Oshima, Yasuzo Masumura,
Seijun Suzuki e outros. É um cinema em que a violência,
a revolta, o inconformismo e o sexo predominam, com alto nível
artístico. Essa tendência produziu algumas películas
soberbas no Japão, que chegaram até nós já
numa segunda fase, antes que as salas que exibiam filmes japoneses fechassem
e a indústria nipônica entrasse em crise. Em muitas obras
de Reichenbach a influência desse cinema é muito visível
e positiva, absorvida de forma consciente e colaborando muito para o
resultado dos filmes, nos quais o ritmo, um certo clima anárquico,
a montagem, os personagens e liberdade de concepção lembram
incisivamente a nouvelle vague do Japão.
A influência dos intimistas da linha Ozu-Gosho-Naruse pode ser
percebida também no cinema de Rubem Biáfora, diretor e
crítico de vanguarda, que foi um dos primeiros, senão
o primeiro, a chamar a atenção para os filmes japoneses,
desde o primeiro momento de sua aparição, tendo acompanhado
e registrado todas as películas que passaram em São Paulo
em sua coluna "Indicações da Semana", publicadas
até recentemente em O Estado de São Paulo, com fichas
técnicas e artísticas completas, constituindo-se numa
preciosa fonte de dados sobre a presença do cinema nipônico
em nossa cidade.
O segundo filme de Biáfora, intitulado O QUARTO, tem profundas
influências do que melhor existiu no intimismo japonês,
talvez mais do que qualquer outro filme brasileiro, no seu despojamento,
sua visão humanista da miséria e dos problemas cotidianos,
abordados com extrema sensibilidade.
O movimento intitulado de Cinema Novo, cuja produção se
concentrou principalmente no Rio de Janeiro nos anos sessenta, também
registra alguma influência do cinema japonês, mas desta
vez pela via dos filmes que chegaram à Europa e a todo o Ocidente
através dos festivais europeus já citados, sem nada a
ver com o intimismo ou a nouvelle-vague que chegaram a São Paulo
através de décadas, numa amostragem muito mais extensa
da variedade do cinema que se fazia no Japão. O segundo filme
de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na terra do Sol, tem características
marcantes do que se convencionou chamar estilo "samurai",
principalmente na marcação dos atores, nos gestos largos,
gritos e movimentação quase coreográfica, que lembram
imediatamente a "mise-en-scène" de alguns filmes de
época do Japão, apesar de a ação se desenrolar
no sertão nordestino do Brasil. Também alguns filmes do
cineasta Rui Guerra apresentam sinais dessa influência.
Acredito que alguns outros filmes de cineastas brasileiros poderão
apresentar alguns sinais, voluntários ou não, dessa mesma
influência, o que só poderá ser verificado com uma
cuidadosa revisão da produção brasileira, que algum
dia será feita. De qualquer forma, penso que é um fato
inédito e curioso a existência dessa presença de
similitudes de estilo, de forma e conteúdo, vindo do cinema de
um país tão distante como o Japão para obras de
cineastas do Brasil, um país sempre aberto apenas aos grandes
movimentos e modas europeus e americanos, que chegam através
de grande marketing e publicidade, enquanto a produção
japonesa nos chegou e marcou sua presença e influência
através da simples e discreta exibição de suas
obras-primas, para públicos restritos mas apaixonados, que as
absorveram com espontânea e verdadeira admiração.
(*) Walter Hugo Khouri, considerado um
dos grandes cineastas brasileiros começou a fazer cinema em 1953
com “O Gigante de Pedra” e desenvolveu uma das obras mais
coerentes do cinema brasileiro. Seus filmes de destaque foram produzido
na década de 60: “Noite Vazia” (1964), “Corpo
Ardente” (1966) e “As Amorosas” (1968).
Estudioso da literatura, iconografia e filosofia japonesa, nos anos
50 escreveu artigos sobre cinema japonês no jornal O Estado de
São Paulo. Fez alusões à cultura japonesa em filmes
como Noite Vazia e Eros, tendo contado com a participação
da atriz nikkei Célia Watanabe.
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