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Texto de Walter Hugo Khouri .
Texto de Lúcia Nagib .
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Filmes jap. que participaram de Festivais .
Onde encontrar filmes japoneses .
Bibliografia .
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As mostras
Texto de Lúcia Nagib (*)
Os anos 80 foram realmente um período
triste. Lembro-me de assistir no Cine Jóia ao único episódio
remanescente da trilogia Guerra e humanidade (Ningen no joken, 1959),
obra-prima pacifista de Masaki Kobayashi então reduzida a uma
cópia riscada e rouca, projetada numa sala vazia, gelada, cheirando
a mofo. Seu grande astro, Tatsuya Nakadai, interpretando o supervisor
de um campo de prisioneiros da Manchúria, parecia mais triste
que ao cometer o suicídio em Harakiri (Seppuku, 1962), outra
jóia de Kobayashi. O Niterói, na decadência, também
parecia mal-assombrado pelas almas agora esquecidas das grandes estrelas,
como Machiko Kyo, Kinuyo Tanaka e a eterna namorada do Japão,
Setsuko Hara, substituídas por nomes obscuros de produções
em série.
Paralelamente, porém, germinava um novo fenômeno destinado
a inverter essa situação. Quando todos começavam
a dar como certo o fim do cinema japonês em São Paulo,
a Fundação Japão organizou em 1984, em conjunto
com o Museu de Arte de São Paulo (MASP), uma retrospectiva abrangente
da obra de Nagisa Oshima, que veio em pessoa apresentar seus filmes
acompanhado de sua linda esposa e atriz Akiko Koyama. O que se operou
ali foi uma mini-revolução. O grande auditório
do MASP, abarrotado de gente em todas as sessões, assistiu a
filmes esbanjando vigor e juventude, em nada semelhantes às obras
bem-comportadas dos mestres de outrora. O método de Oshima era
atacar o Japão sem piedade para assim resgatar o indivíduo
japonês e uma tradição de liberdade anterior ao
militarismo e à guerra. Inesquecíveis para quem viu, em
cópias imaculadas, os filmes Conto cruel da juventude (Seishun
zankoku monogatari, 1960), Maníaco à luz do dia (Hakuchu
no torima, 1966), O enforcamento (Koshikei, 1968), Cerimônias
(Gishiki, 1980) e acima de tudo O império dos sentidos (Ai no
koriida, 1976), nos quais amor e morte se expressam em imagens magnificamente
radicais.
Na mesma época, era lançado em circuito comercial Furyo,
em nome da honra (Senjo no merii kurisumasu, 1983), também de
Oshima, obra fadada ao sucesso já a partir da dupla de músicos,
David Bowie e Ryuichi Sakamoto, que a protagoniza. Tanto quanto estes
artistas pop, chamava a atenção no elenco um ator ainda
desconhecido no cinema, mas que se tornaria o cineasta japonês
mais celebrado da atualidade: Takeshi Kitano, interpretando um memorável
Sargento Hara.
O Brasil também foi uma descoberta para Oshima e Koyama. Enquanto
ela documentava para a televisão japonesa a história de
seu pai, o introdutor da pimenta-do-reino em Tomé Açu,
no Pará, ele pesquisava, para um futuro filme que infelizmente
nunca realizou, a história da Shindo-Renmei, organização
paulista de japoneses conservadores, que forjou e vendeu a versão
da vitória do Japão na guerra. Hoje o assunto –
na época um tabu, que Oshima pretendia romper – encontra-se
ricamente documentado no livro de Fernando Morais, Corações
sujos (Companhia das Letras, 2000).
A mostra Oshima foi o marco inaugural de uma atividade que veio, senão
substituir os antigos cinemas da Liberdade, pelo menos garantir a presença
do cinema nipônica no cenário paulista. Nos anos seguintes,
seguiram-se outras mostras deslumbrantes, que agradavam não apenas
cinéfilos e estudiosos, mas também os antigos espectadores
da colônia japonesa, que às vezes vinham do interior em
ônibus fretados, devidamente munidos de seu obento (lanche japonês)
para assistir a várias sessões seguidas.
A mostra “Novo Cinema Japonês”, em 1987, deu início
a uma parceria com a Cinemateca Brasileira que iria se desdobrar em
outras quatro mostras: “Grandes Momentos do Cinema Japonês”
(1988), “Panorama Yasujiro Ozu” (1990), “Mestre Mizoguchi
– Seleção dos mais Belos Filmes” (1990) e
“Japão: Cinema e Literatura” (1992). Na mostra “Novo
Cinema Japonês”, novos talentos, como Kohei Oguri, Nobuhiko
Obayashi, Yoshimitsu Morita, Sogo Ishii e ainda Mitsuo Yanagimachi,
que veio ao Brasil apresentar dois de seus filmes, eram a prova de que
o cinema japonês não se deixara vencer pela falência
das grandes produtoras em sua terra natal. Lançando-se como independentes,
os novos diretores estavam garantindo a renovação do cinema
em seu país.
No ano seguinte, “Grandes Momentos do Cinema Japonês”
trouxe ao Brasil o mais famoso crítico e historiador de cinema
do Japão, Tadao Sato, para apresentar jóias da cinematografia
nipônica, como Vida de casado (Meshi, Mikio Naruse, 1951), Portal
do inferno (Jigokumon, Teinosuke Kinugasa, 1953), De onde se avistam
as chaminés (Entotsu no mieru basho, Heinosuke Gosho, 1953),
Sublime dedicação (Nijushi no hitomi, Keisuke Knoshita,
1954), dentre outras obras-primas de Kurosawa, Ozu e Mizoguchi. Os dois
últimos, aliás, voltariam, em 1990, em duas mostras exclusivas:
“Panorama Yasujiro Ozu” e “Mestre Mizoguchi: Seleção
dos mais Belos Filmes”, por ocasião das quais tive a oportunidade
de organizar, respectivamente, os livros Ozu – o extraordinário
cineasta do cotidiano (Cinemateca Brasileira/Marco Zero) e Mestre Mizoguchi
– uma lição de cinema (Cinemateca Brasileira/Navegar).
Seguiu-se a mostra “Japão: Cinema e Literatura”,
abrindo espaço para a divulgação de grandes obras
da literatura japonesa, até hoje mal representadas no mercado
editorial brasileiro. Clássicos como Miyamoto Musashi, de Eiji
Yoshikawa, na célebre adaptação de Tomu Uchida,
Miyamoto Musashi: o estilo duas espadas (Miyamoto Musashi Nittoryu Kaigen,
1963), foram apresentadas ao lado de experimentações formais
como Mulher de areia, de Kobo Abe, no filme Mulher de areia (Suna no
onna, 1964), de Hiroshi Teshigahara, sobre roteiro do próprio
Abe.
A mostra “Nouvelle Vague do Japão – filmes que mudaram
a história do cinema japonês”, promovida pela Fundação
Japão em conjunto com a Unicamp, em 1993, envolveu a vinda do
diretor Yoshishige Yoshida, um curso dado por mim na Unicamp e o lançamento
do meu livro Em torno da nouvelle vague japonesa (Editora da Unicamp),
em Campinas e São Paulo. A mostra de filmes, exibida no Museu
da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, e no Centro Cultural
Victória, em Campinas, contou com nada menos de 25 filmes de
nove diretores. Foi uma rara oportunidade de acompanhar o processo pelo
qual, a partir de meados dos anos 50, a juventude tomou o poder no cinema
japonês, rompendo com a estrutura hierárquica dos estúdios.
A mostra iniciou-se significativamente com a película fundadora
de Ko Nakahira, Paixão juvenil (Kurutta kajitsu, 1956), filme
que sugeriu a François Truffaut várias das técnicas
que a seguir ele usaria em Os incompreendidos (Les quattre cents coups,
1959), marco zero da nouvelle vague na França. Outro precursor,
Yasuzo Masumura, representado por dois filmes, já trazia as qualidades
que se desenvolveriam nas grandes obras daqueles que Oshima chamou de
“os sete samurais da nouvelle vague japonesa”: Shohei Imamura,
Masahiro Shinoda, Yoshishige Yoshida, Seijun Suzuki, Hiroshi Teshigahara,
Susumu Hani e, claro, o próprio Oshima.
O volume de obras de grande impacto, contido nessa mostra, deixou marcas
nos dez anos que se seguiram, tornando frequente a presença da
hoje antiga nouvelle vague japonesa na Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo. O tradicional festival paulista já dedicou
retrospectivas ao originalíssimo Shohei Imamura e a Eizo Sugawa,
cineasta cuja popularidade no Brasil se deve, em boa parte, ao diretor
Carlos Reichenbach, seu fã e divulgador. Neste ano de 2003, o
homenageado, na Mostra Internacional, é mais uma vez Yoshishige
Yoshida, que visita São Paulo pela segunda vez.
Os anos 90 no Japão foram devidamente marcados pela mostra “Cinema
Japonês – Anos 90”, que a Fundação Japão
organizou em colaboração com o Centro Cultural São
Paulo. Algumas obras-primas, como O ferrão da morte (Shi no toge,
Kohei Oguri, 1990), apareceram ao lado de trabalhos iniciais de diretores
promissores, como Joji Matsuoka, Masayuki Suo e também Takeshi
Kitano.
Apesar do louvável empenho da Fundação Japão,
com suas excelentes mostras e eventos, e dos festivais de cinema que
trazem anualmente algumas novidades nipônicas, a presença
do cinema japonês em São Paulo é hoje irregular.
São um ou outro Kitano distribuídos comercialmente e lançamentos
esporádicos no circuito alternativo, que ficam uma ou duas semanas
em cartaz, como os marcantes Maborosi (Maboroshi no hikari, Hirokazu
Kore-Eda, 1995), na Cinemateca Brasileira, e Eureka (Shinji Aoyama,
2000), no Cinesesc. Porém, apesar de todas as crises anunciadas
e vividas, o Japão ainda lança cerca de 250 filmes por
ano, mantendo-se entre os grandes produtores do mundo. O Brazil, que
possui a segunda maior população japonesa fora do Japão,
sem dúvida merece degustar mais desse biscoito fino.
(*) Lucia Nagib, crítica de cinema, autora de diversos livros
sobre cinema japonês e professora na Universidade de Campinas.
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