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    Panorama do Mangá e Animę

Texto de Sonia M. Bibe Luyten *

Os mangás ou, os quadrinhos japoneses, não diferem na evolução de sua trajetória dos outros países até chegar a forma definitiva de sua linguagem. Como em muitos países europeus ou asiáticos, no Japão foram muitos os marcos que definiram o que denominamos de arte seqüencial.

Na Idade Média japonesa, nos séculos XI e XII já se produziam desenhos pintados sobre grandes .rolos de papel de arroz contando uma história. Os mais famosos são chamados de Chojugiga – desenhos humorísticos de pássaros e animais – de origem sacra, elaborados pelo monge Kakuyu Toba. Até o século XV muitos outros cartuns humorísticos eram bem conhecidos entre a população exatamente quando o país passava por inúmeras guerras impiedosas.

Outro tema que foi muito popular a partir do século XV foi o das histórias de fantasmas e assombração com cunho humorístico como é o caso da “Caminhada noturna de cem demônios” (Hyakki Yako), tema este presente até hoje no mangá moderno
Foi, porém, no Período Edo ( (1660-1867) que os quadrinhos japoneses deram um grande salto a partir das obras do artista Katsushita Hokusai, grande gravurista da modalidade ukyiyo-ê. Este gênero de arte consistia na produção de gravuras em madeira, com temas populares, que projetou uma realidade mais livre do que os cânones tradicionais. Desta forma, Hokusai, entre os anos 1814 e 1849 criou um conjunto de obras em 15 volumes designados como Hokusai Manga. Estes desenhos de forma caricatural – exagerando a forma dos seres humanos – tinham como tema a vida urbana, as classes sociais, a natureza fantástica e a personificação dos animais.

Somente alguns anos mais tarde, contudo, que o mangá teve o nome adotado e consagrado através do desenhista Rakuten Kitazawa. Kitazawa pertence a geração de artistas pós abertura dos portos do Japão que ocorreu em 1853, depois de mais de 200 anos de isolamento do país do resto do mundo, com exceção da Holanda. A nova era nipônica, chamada Meiji, trouxe muitas inovações para o país em várias áreas inclusive no âmbito artístico e jornalístico com a vinda de estrangeiros, principalmente da Europa. Neste cenário é que os japoneses conheceram as primeiras revistas de humor de moldes ingleses e franceses.

Kitazawa recebeu grande influência do inglês Charles Wirgman que editou o jornal The Japan Punch trazendo para o meio jornalístico os moldes da imprensa britânica com charges políticas que fascinou os japoneses. O sucesso foi tão grande que surgiu a primeira revista japonesa de humor Marumaru shimbum em 1877 e teve a duração de 30 anos. Os japoneses trocaram o pincel pela pena e os quadrinhos tomaram rumos diferentes no Japão.

Eles, a princípio, começaram a traduzir muitas histórias norte-americanas que apareceram no início do século XX na imprensa mas, pouco a pouco, iniciaram uma produção local pois perceberam que os temas e o tipo de humor não tinham muito a ver com a realidade nipônica. O outro grande marco editorial japonês ocorreu na década de 1920 com o início de publicações para o público infantil fortalecendo na década posterior onde já havia um mercado nitidamente separado do adulto.

Após a Segunda Guerra Mundial houve mais modificações na estrutura editorial dos mangás com uma intensificação na produção específica para o público adolescente, dividido em sexo: quadrinhos para garotas, os shojo manga e, rapazes, shonem manga, cobrindo uma faixa etária aproximadamente de 12 a 18 anos. É importante mencionar que após a Segunda Guerra havia poucos recursos materiais e financeiros e cada setor teve que se adaptar às necessidades da época. No caso do mangá, o recurso foi utilizar o papel jornal como alternativa nas revistas. O artifício foi a impressão monocromática – variando do rosa, roxo ou azul claro – conforme o teor do enredo sendo que esta característica continua até hoje.

Outro fator diferencial é que as revistas de HQ, conforme a faixa etária a que se destina, contém de 100 a até 500 páginas fugindo do formato tradicional americano. Estas revistas contém diferentes histórias, de diferentes autores, cada uma seguindo sua série que, muitas vezes, duram alguns anos para chegar ao fim. A cada semana ou quinzena a editora, a qual as revistas pertencem, faz uma pesquisa de opinião pública para verificar o grau de contentamento dos leitores sobre as histórias da revista.
No Japão há cerca de uma centena de editoras de revistas de HQ sendo as mais importantes a Shueisha, Kodansha e Shogagukkan, possuindo as maiores tiragens.
Atualmente as editoras japonesas tem segmentos de mercado com uma divisão de faixa etária e podemos classificá-las em três grandes categorias:
1- Revistas infantis – normalmente de cunho didático que se denominam shogaku e possuem uma variedade imensa de temas abordados que vão desde assuntos escolares, hobbies e até conselhos úteis aos mini leitores. Na parte central da revista há a inclusão de uma história em quadrinhos versando sobre aventura, lendas antigas do país, histórias cômicas, etc. Sob a forma de entretenimento, as revistas infantis direcionam a criança não só para o aprendizado mas para sua inserção na sociedade japonesa lembrando-as sempre do respeito aos mais velhos, como se comportar e a memorização das datas comemorativas do país.
2- Revistas femininas – denominadas shojo mangá - que cobre a fase da adolescência com grande sucesso de vendagem nas décadas de 1970 e 80. Com uma faixa de quase 50 títulos, seu êxito deveu-se muito à identificação do público leitor feminino e as histórias contidas nas revistas com a exploração máxima de enredos melodramáticos e o clima de romantismo. A temática é variada sempre enfocando amores impossíveis, separações e rivalidades entre amigas. Uma característica marcante do shojo mangá é que embora o gênero tenha se iniciado por mãos masculinas como Osamu Tezuka, ele é feito em sua maioria, por jovens mulheres desenhistas. O Japão é o país onde há a maior incidência de mulheres neste mercado de trabalho.
3- Revistas masculinas – denominadas shonen mangá – tendo como público rapazes adolescentes. Alguns de seus títulos venderam na década de 1980 milhões de exemplares semanais. Seu conteúdo, além dos quadrinhos, apresenta reportagens sobre esportes, artistas da época, competição entre escolas e novidades na área de brinquedos, robôs e video games. A temática inclui variantes do samurai invencível, o esportista perseverante dentro sempre da autodisciplina, profissionalismo e competição. Todas tem como característica comum o espírito japonês que dá ênfase à rigidez moral e o fortalecimento do espírito, algo muito semelhante ao código de conduta do bushido – o caminho do guerreiro samurai. Se as situações românticas prevalecem no mangá feminino, no shonen mangá a violência em todas as suas modalidades é a principal característica das histórias masculinas.

Além desta faixa mais definida de sexo e idade, a produção editorial japonesa contempla também mangás para adultos em diversas modalidades. Para as garotas que saíram da adolescência há revistas para jovens mulheres executivas bem como para seus pares masculinos. Este último é denominado de sarariman mangá (do inglês salaryman) Também a terceira idade é contemplada com situações cômicas de comportamento de “tias” e “avós” com revistas especiais dentro desta temática.

Atualmente com a introdução de desenhos mais realistas nas revistas femininas, o público masculino tem se desviado para as revistas do shojo mangá e muitos rapazes cansados de ler histórias muito violentas preferem esporadicamente ler algumas aventuras românticas do mangá feminino. O importante é que a industria do mangá, com o passar do tempo, sempre soube captar tendências de comportamento, decodificá-las e transformá-las em sua linguagem característica acompanhando também a evolução tecnológica.


(*)Sonia M. Bibe Luyten é Doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Atualmente leciona a cadeira de Histórias em Quadrinhos e Mídia e é Coordenadora do Mestrado em Comunicação da Universidade Católica de Santos.

 
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