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    Mangás produzidos no Brasil

Texto de Sonia M. Bibe Luyten *

Da fase experimental dos fanzines para as publicações foram realizadas produções comerciais a nível de pequenas e médias editoras. Do Judoka, da década de 1970, dá-se um salto para os anos 90 com a Filosofia do Samurai na administração japonesa (Cláudio Seto, Francisco Noriyuki Sato, R. Kussumoto) tema da cultura japonesa em estilo mangá tradicional, ao mangá erótico (A japonesa indomável, A japonesa insaciável, Hentai X ), para experiência das lendas e histórias japonesas (Momotaro de Newton Foot, e Darumá san, roteiro de Fábio Tatsubô, desenhos arte de Luís Yasaka) à presença dos jovens desenhistas nisseis (Tsunami, Holy Avenger). Destaques individuais como Alexandre Nagado, Mozart Couto, Marcelo Cassaro, Arthur Garcia Eduardo Müller, Daniel HDR vieram, ano após ano, engrandecer este conjunto.

A grande surpresa vem da mídia digital onde a história Combo Rangers, de Fábio Yabu fez tanto sucesso na tela do computador que passou para a mídia impressa em edições da JBC e da Panini.

No campo editorial as médias editoras passam a ocupar um lugar de destaque com títulos de mangá traduzidos de sucesso mas dando lugar também a publicações brasileiras de mangá como é o caso do próprio Combo Rangers e também do álbum Mangá Tropical , uma experiência inédita de Alexandre Nagado juntar numa só publicação nomes conhecidos do mundo do mangá brasileiro que já vinham de fanzines ou de experiências comerciais de sucesso. Neste álbum a tônica do enredo mudou. Se, a princípio, as publicações de mangá brasileiro estavam na linha mais imitativa de seus pares japoneses, trocou-se Tóquio por cidades brasileiras e a ficção científica por outros temas como aventura, histórias de relacionamento, humor e romance.

Além das publicações comerciais, o mangá enquanto estilo, tem se prestado também para as narrativas institucionais, como foi o caso de José Bonifácio de Alexandre Barbosa, obra na qual o autor utilizou-se de recursos estilísticos de mangá, embora não houvesse nenhuma referência ao Japão.

Nos anos 1990 o mundo inteiro se surpreende com a “invasão” dos mangás e animês com um grande pacote mercadológico impossível de passar desapercebido. No caso do Brasil, o país ocupa uma situação ímpar neste contexto, em função dos descendentes de japoneses - o maior contigente do mundo – que trouxe também em sua bagagem cultural o hábito de leitura dos mangás. Embora a nível do grande público isto não foi perceptível diretamente, no momento em que o mangá e o animê são exportados em grande escala, já havia aqui sementes que permitiram uma expansão significativa.

As experiências de desenho e de linguagem desenvolvidas através dos fanzines foram depuradas e se encaminhando para as publicações comerciais. De um lado há desenhistas e aficionados que insistem na linguagem original dos mangás e outros, ao contrário, os vêem como um estilo onde seu conteúdo pode conter roteiros brasileiros. Da mesma forma que os japoneses assimilaram a técnica ocidental no final do século XIX, o estilo mangá está sendo absorvido e adaptado para conteúdos ocidentais (e brasileiros no caso) tornando-se uma nova forma de expressão da arte seqüencial.

A produção progressiva, tanto de fanzines como de obras traduzidas e, principalmente, trabalhos originados no Brasil em estilo mangá mostram que sua linha ainda é ascendente e apresenta diversos nichos de mercado como a participação feminina e a produção artística e institucional com desenvolvimentos próprios.

(*)Sonia M. Bibe Luyten é Doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Atualmente leciona a cadeira de Histórias em Quadrinhos e Mídia e é Coordenadora do Mestrado em Comunicação da Universidade Católica de Santos.
 
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