Introdução .
texto de Shuhei Hosokawa .
"A Disseminação do karaokê no
Brasil nas últimas décadas" .
Entidades Organizadoras .
Associações de karaokê .
Serviços .
Conjuntos Musicais.
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A HISTÓRIA DO KARAOKĘ
NO BRASIL por Shuhei Hosokawa (*)
Desde 1908, quando o Kasato-Maru aportou em Santos
trazendo os primeiros imigrantes japoneses, a música já
integrava a cultura e o lazer dos colonos. Como a maioria dos imigrantes
procedia de regiões rurais, muitas festividades típicas
japonesas foram introduzidas no cotidiano da colônia nipo-brasileira
que se instalava.
Em eventos como inaugurações de colônias, aniversários,
chegada de convidados, os japoneses comemoravam reunindo-se na casa
ou galpão do líder da comunidade local e começava
uma informal solenidade: um após o outro improvisava canções
enquanto a platéia proseava, dançava e marcava o ritmo
com palmas, único acompanhamento músical do cantor.
Com o tempo, as festas passaram a constituir uma atividade formalizada.
Surgiu o chamado engueikai, tipo de show de variedades com a participação
de números como coros infantis, execuções de acordeão
e gaita de boca, peças teatrais pedagógicas, leitura de
estórias moralistas, danças japonesas e ocidentais, rokyoku
(gênero popular narrativo praticado nas primeiras décadas
deste século), melodramas, peças militares, tragédias
tradicionais.
Somente no pós-guerra, surgiram conjuntos amadores que, em 1946,
gravaram pela primeira vez números originais e melodias populares
japonesas. Mas o evento que marcou época foi o nodo-jiman ('nodo'
significa garganta ou a voz que canta e 'jiman', orgulho, portanto nodo-jiman
pode ser traduzida como "orgulho de cantar"), um concurso
de canto onde os cantores apresentavam-se com orquestras. Cada cantor
representava uma região (São Paulo - Capital; Noroeste;
Sorocabana; norte do Paraná) e era classificado por um grupo
de jurados.
Esse tipo de concurso teve início em programas de rádio
no Japão logo após a guerra e foi popular até 1955
ou 1956, quando a indústria da música recuperou-se dos
danos resultantes do conflito e estruturou gradativamente um sólido
"sistema de astros", conjuntamente com a indústria
cinematográfica. Na prática, o nodo-jiman era uma variante
do conhecido "show de calouros", onde populares tentavam tornar-se
astros durante o breve tempo da apresentação.
O concurso de calouros brasileiro diferia do nodo-jiman. Enquanto para
os brasileiros o programa de calouros consistia numa forma de exibição
musical, a versão da colônia nipo-brasileira era mais sistematizada
e politizada, pois o pensamento corrente era que a competição
séria é moral, cultural e psicologicamente mais relevante
que a simples brincadeira. Havia uma regulamentação que
reforçava a "seriedade" do nodo-jiman: cada candidato
deveria ser filiado a uma associação de descedentes de
japoneses, havia concursos seletivos, competições inter-regionais,
repertório pré-definido, regras na exibição.
No final da década de 50, a estrutura de poder do nodo-jiman
fundira-se com a mídia étnica como emissoras de rádio,
jornais, assim como estabelecimentos comerciais. A maioria dos cantores
permaneceu amadora mas o sistema em si profissionalizou-se.
Somente em 1970, a aparelhagem eletrônica utilizada no Karaokê
foi inventada e transplantada ao Brasil em meados da mesma década.
Gradualmente, os cantores passaram a preferir o acompanhamento mecânico
mais perfeito às "orquestras humanas" de baixa qualidade.
Além disso, a gravação era geralmente meio ou um
tom abaixo do original, facilitando cantores menos preparados.
A estrutura básica do mundo do karaokê pouco mudou desde
a fase do nodo-jiman, exceto que com o playback, o sistema popularizou-se
e sofisticou-se. Acredita-se que na Grande São Paulo, exista
entre 120 e 150 associações de karaokê. Elas realizam
sessões semanais de ensaios, abertas ao público, reunindo
amigos num ambiente mais saudável que os estabelecimentos de
karaokê cuja atmosfera é vulgar e é alto o consumo
de bebidas alcoólicas.
Atualmente, pode-se presenciar espetáculos de karaokê não
apenas em programas de televisão, como o "Japan Pop Show"
e "Imagens do Japão", mas também em vários
centros nipo-brasileiros em São Paulo e Paraná. Aos domingos,
pelo menos três ou quatro competições são
realizadas na cidade de São Paulo, quando no período das
oito horas da manhã até a meia-noite, por volta de 150
a 200 participantes disputam troféus em concursos do gênero.
Para os brasileiros, o karaokê é uma continuação
do programa de calouro. Trata-se de uma festa onde qualquer um pode
cantar, sozinho ou acompanhado, interromper se quiser, brincar com a
audiência. Já para os nipo-brasileiros, algumas regras
"cerimoniais" permanecem, como cantar sozinho até o
final da canção; o público deve conversar em voz
baixa e a apresentação será saudada polidamente
com palmas.
É interessante notar que a frágil infra-estrutura da indústria
musical da comunidade contrasta com a sólida e rígida
do mundo do karakê.
Em 1989, foi criada a União Paulista de Karaokê (UPK) com
o objetido de unificar as associações, os padrões
de julgamento e a administração computadorizada da carreira
dos cantores. Para conceder os graus de "igualdade" e "distinção",
a UPK avalia cada cantor segundo seu currículo em concursos.
No topo estão as categorias B, A, Especial, Extra e Superextra.
Independente da excelência de seu canto, o candidato deve partir
da categoria B e ser promovido passo a passo. O judô, ikebana,
shodô e outras artes tradcionais japonesas possuem idêntico
sistema de graduação.
O que os brasileiros esperam com o canto é expressar alegria,
que, através do mesmo ritmo, une a multidão anônima.
Os japoneses, por sua vez, desejam demonstrar um distanciamento pessoal
do rígido sistema da vida cotidiana. No Brasil, a música
é mais espontânea, acompanhada geralmente com o violão
e percussão. No Japão, pelo contrário, o sucesso
do karaokê advém justamente da necessidade que o povo japonês
tem de estabelecer um esquema para se expressar de forma liberal e individual
e pelo amplo acesso às melodias de acompanhamento, geralmente
lançadas simultaneamente ao sucesso do cantor.
O concurso de karaokê no Brasil é um exemplo de um esquema
bem-sucedido. Para os que observam de fora, ele parece constituir uma
forte pressão contra a alegria, mas para os cantores funciona
como uma proteção cultural e incentivo psicológico
que finalmente leva a um êxtase. E para os promotores e organizadores
é um dispositivo para a industrialização da educação
do canto. O canto não é mais um hobby genuíno.
As comunidades onde o profissionalismo musical se provava impossível
e que imitavam o modelo procedente do Japão, conseguiram reelaborá-lo,
transformando-o num modelo particular que privilegia, sobretudo, o desejo
de cantar.
(*) Shuhei Hossokawa é crítico
de música e musicólogo do Japão.
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