Introdução .
texto de José Yamashiro .
"A mídia nikkey pós-guerra
e suas transformações" .
Agências Noticiosas .
Correspondentes no Japão .
Guias .
Jornais .
Programa de Rádio .
Revistas .
Programas de TV .
Produtoras .
Sites .
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OS QUATRO DA DÉCADA DE 30
Texto de José Yamashiro (*)
"De todas as publicações japonesas,
os jornais, em especial os de São Paulo, exerceram a mais poderosa
influência na comunidade nipônica do Brasil". (De Uma
Epopéia Moderna - 80 Anos da Imigração Japonesa
no Brasil, pag. 232).
Tratava-se dos seguintes jornais (com data de fundação
e respectivos diretores-proprietários): Nippak Shinbun, 1916,
Sack Miura; Burajiru Jiho, 1917, Seisaku Kuroishi; Seishu Shinno, 1921,
(fundado em Bauru, muda-se para São Paulo em 1934) Rokuro Koyama
e Nippon Shinbun, 1932, Sukenari Onaga.
Sack Miura desembarcou no país em 1909, não de qualquer
"maru" de imigrantes, mas sim do navio-escola brasileiro Benjamin
Constant, que passara pelo Japão em viagem de treinamento de
guarda-marinhas. Consta que Miura fora salvo pelo navio de nossa Marinha
de Guerra, quando o barco pesqueiro em que trabalhava naufragou no Pacífico.
Era um tipo de samurai aventureiro. Lutava judô. Falava, além
do japonês, inglês e alemão e aprendeu o português.
Na direção do jornal combatia tudo que lhe parecia abuso
de autoridade ou incompetência dos representantes diplomáticos,
como o embaixador e o cônsul-geral. E fustigava o seu maior concorrente,
diretor do Jiho. Seu estilo direto, contundente e ferino agradava muitos
leitores. Mas criou inimigos ferrenhos. Consequência: foi expulso
do território nacional duas vezes (1927 e 1939). Seus inimigos
arquitetaram denúncias de que se tratava de elemento perigoso
aos interesses nacionais. Na primeira vez, amigos conseguiram a revogação
do decreto de expulsão. Na segunda foi parar no Japão
onde ficou preso até o fim da guerra. Libertado, faleceu vítima
de subnutrição.
Seisaku Kuroishi era o oposto de Miura. Um cavalheiro, moralista e conservador.
Incumbido por empresa de emigração do Japão a organizar
um jornal, trouxe consigo tipos e até tipógrafos. Anos
depois tornou-se proprietário único do jornal. Escrevia
editoriais sobre o óbvio. Seu adversário e concorrente
Miura dizia que ele escrevia editorial assim: "Quando chove faz
mau tempo". No entanto, o seu jornal tinha muitos leitores no interior.
E foi o único entre os quatro que voltou a circular no pós-guerra,
porém teve vida efêmera.
Rokuro Koyama faz parte da primeira leva de imigrantes chegados a bordo
do Kasato-Maru em 1908. Participou da fundação da colônia
Uetsuka, de Promissão no Noroeste, onde na década de 20,
milhares de imigrantes japoneses desbravaram sertões, e fundaram
colônias que evoluiriam para prósperos municípios
no correr dos anos. Koyama viveu a saga desses compatriotas. Compartilhou
das suas vitorias e derrotas, alegrias e tristezas. Provavelmente por
isso, quando chegou a fase das restrições à liberdade
de ensino japonês, à imprensa em língua estrangeira
e outras medidas repressivas do Estado Novo, sustentou a tese de reemigração
dos japoneses. Encerrou as atividades do jornal com o artigo de despedida:
"Nós asiáticos devemos retornar a Ásia".
Sukenari Onaga - formado pela Escola Superior de Marinha Mercante de
Tóquio em 1912, desceu de um navio em Lima onde permaneceu dois
anos. Em 1914, atravessou os Andes pela Bolívia e depois de muitas
peripécias alcançou São Paulo. Experimentou diversas
profissões até se empregar no Burajiru Jiho, no qual chegou
a redator-chefe. Desentendo-se com o diretor, abandonou o emprego. Ocupou
a seguir o cargo de secretário executivo da Dojinkai (Sociedade
Japonesa de Beneficência no Brasil), entidade dedicada a cuidar
da saúde dos imigrantes e que construiu o Hospital Japonês
(atual Santa Cruz). Em 1932, adquiriu o jornal Nambei Shinpo e que passou
a chamar-se Nippon Shinbun. Tornou-se conhecido pela orientação
que imprimiu ao jornal marcada pela honestidade, sinceridade e coerência.
Como órgãos de comunicação
da comunidade nipônica, os jornais procuravam esforçar-se
ao máximo para acompanhar e cobrir as suas atividades econômicas,
sociais e culturais. Por isso, prestavam muita atenção
ao problema da educação, que constituía a maior
preocupação dos imigrantes com filhos em idade escolar.
O fulcro da questão residia no dilema: primeiro o ensino japonês
e depois brasileiro ou o contrário? Em editorial de 31 de julho
de 1925, o Nippak Shinbun, depois de tecer considerações
sobre os diferentes aspectos do problema, escrevia:
"Seja qual for a forma da emigração, a maioria terá
que morrer na terra para a qual emigrou, logo, a educação
de dainisei (nissei) deve ser local, ou seja, a brasileira... Será
perfeito se (com essa orientação) formarmos cidadãos
conscientes de seus deveres, corajosos e honestos. Então, teremos
uma segunda geração da qual não precisaremos nos
envergonhar".
Era, para a época uma opinião avançada, por quanto
a maioria dos imigrantes tencionava voltar à pátria, depois
de ganhar um bom pecúlio. E buscava formar "súditos
nipônicos" de seus filhos. Esse modo de pensar ganhou reforço
na década de 30, devido a influência do vigoroso surto
ultra-nacionalista no Japão. Mas ainda assim, o Nippon Shinbun
que começou a circular em 1932, propugnava a necessidade de se
formar os nisseis como cidadãos brasileiros.
Para concluir estas notas, lembremos que os donos de jornais, antes
da II Guerra Mundial, escreviam eles próprios os editoriais e
consideravam a imprensa como shakai no bokutaku (guia orientador da
sociedade). Cada um a seu modo defendia seus princípios e suas
idéias através de seu veículo.
Eram os jornalistas dos tempos heróicos da história da
comunidade japonesa do Brasil.
(*) José Yamashiro - Jornalista, iniciou
suas atividades profissionais na página portuguesa do Nippak
Shinbun, em 1937. É tradutor juramentado. Desde 1950 vem publicando,
em português, livros sobre diferentes aspectos da história
e cultura do Japão.
Fontes:
Comissão de Elaboração da História dos 80
anos da Imigração Japonesa no Brasil. Uma Epopéia
Moderna - 80 Anos da Imigração Japonesa no Brasil. São
Paulo, Hucitec: Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, 1982.
HANDA, Tomoo. O Imigrante Japonês: História de sua vida
no Brasil. São Paulo, T.A. Queiroz, Centro de Estudos Nipo-Brasileiros,
1987.
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