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Introdução . Texto de Arnaldo Lorençato . Na ponta do hashi - Como a culinária japonesa conquistou São Paulo . Pioneiros e os limites da Liberdade > Clássicos e sua escalada até os anos 70 . São Paulo, a metrópole do sushi . Alta gastronomia à japonesa . Restaurantes . Buffets . Delivery . Compras . Professores e Escolas . Bibliografia . |
Pioneiros e os limites
da Liberdade Antes de tratar propriamente da culinária japonesa que encanta pelo refinamento e pela elegância, é necessário viajar ao passado, ao ano de 1908, data da chegada do navio Kasato-Maru ao porto de Santos. Vestidos à européia, desembarcaram na cidade litorânea os primeiros imigrantes japoneses. Era uma leva de 781 homens, mulheres e crianças. Pelo acordo firmado entre os governos japonês e brasileiro, o grupo deveria ir para o interior do estado de São Paulo, onde trabalharia na lavoura cafeeira. Muitos deles, porém, mentiam suas verdadeiras profissões. Não eram lavradores. No início do século XX, o Japão era um país agrícola, apesar da pequena área cultivável existente. Atravessava um período de penúria interna que levava muitos de seus habitantes em sonhar em “fazer América”, a terra da promessa de fartura. Do grupo inicial que aportou em Santos, apenas 12 tiveram permissão de permanecer na capital. Os demais seguiram para o campo. Ao chegarem ao local de destino, invariavelmente ficavam decepcionados com as duras condições de trabalho encontradas. Era sistema ainda de cunho escravagista adotado pelos barões do café. O desconhecimento do idioma local agravava a situação dramaticamente. Os japoneses se depararam também com um enorme contraste culinário. A comida brasileira era rica em gordura de porco e farinhas de milho e mandioca, verdadeiros mistérios para eles. Mais próximo do cardápio japonês somente o arroz, que para surpresa dos imigrantes, era combinado com o feijão. Em sua terra, a leguminosa normalmente era usada como ingrediente para doces. Tão comum na culinária cotidiana do Japão, o peixe era exceção na mesa brasileira. No interior de São Paulo, era possível consumir somente os peixes pescados em rios e córregos. Pode-se imaginar então o que representava para esses primeiros imigrantes trocar o chá verde, um hábito milenar, pelo potente cafezinho. E o choque que era se deparar com uma manta de carne seca, cujo cheiro lhes parecia repugnante. Para muitos, a solução foi a fuga para a capital, em busca de melhores condições de vida. Segundo o pintor e ensaísta Tomoo Handa, em seu livro O Imigrante Japonês, em 1912, 62% dos japoneses já tinham deixado as fazendas de café. Ansiavam por exercer atividades mais próximas às profissões que tinham originalmente. Na capital, os imigrantes se concentraram na Rua Conde de Sarzedas. Mas esta via estava muito distante de sua configuração atual. Naquela época, era uma ladeira daquelas de pagar promessa, em cuja baixada ficava um riacho cercado por uma várzea. E por que ficar num local tão inóspito? O que atraía os japoneses era o preço baixo dos aluguéis e a proximidade com o centro, o que facilitava o acesso aos locais de trabalho. Em geral, ocupavam os porões de antigos casarões e quartos encontrados no subsolo de residências da região. Não demorou muito para que a Conde Sarzedas ficasse conhecida como a Rua dos Japoneses. Logo depois de instalarem na Liberdade, os imigrantes se reuniam em grupos para matar a saudade de casa. Nas confraternizações, faziam misoshiru, o trivial e saboroso caldo condimentado com pasta de soja. Também assavam sardinhas, o peixe mais barato disponível. Naquele que seria o futuro bairro oriental, os japoneses ficavam em hospedarias muito simples, que tinham refeitórios, os embriões dos primeiros restaurantes. Em função do crescente adensamento de imigrantes, surgiram as primeiras fabriquetas domésticas, especializadas em produzir tofu e manju. O macarrão udon era outro dos produtos elaborados, assim como o shoyu, o molho de soja essencial em qualquer refeição. Ao mesmo tempo, proliferava um pequeno comércio de secos&molhados orientais, assim como as pequenas quitandas. A intensificação migratória, levou os japoneses se espalharem pelas ruas próximas à Conde Sarzedas. Ocuparam também a Irmã Simpliciana (incorporada à Praça João Mendes), Tabatingüera, Conde do Pinhal, Conselheiro Furtado, Estudantes e Tomás de Lima. Avançaram até a Galvão Bueno, Fagundes, São Joaquim e Tamandaré. Foi justamente na Tomás de Lima que foi fundado o Hotel Ueji, em 1914, considerado o primeiro entre os hotéis japoneses de fato na capital. E onde havia pouso, havia refeições. O crescente número de imigrantes tornou o bairro da Liberdade uma referência oriental em São Paulo, com a língua e os costumes japoneses dominando toda a região. A culinária típica ficava restrita ao círculo de imigrantes. Os primeiros restaurantes eram em número reduzidíssimo e atendiam apenas a colônia. Os paulistanos não viam qualidades naquela comida, nem se interessavam por ela. Também não era um costume tão difundido comer fora de casa. Somente a partir dos anos 20 começa uma profissionalização dos serviços. Esse panorama florescente passa por uma mudança negativa no final dos anos 30. Eclode a Segunda Guerra Mundial e o tratamento com os japoneses azeda. Nesse período, imigrantes nipônicos e instituições locais que os representavam passam por severas restrições. Terminada a Segunda Guerra Mundial, os restaurantes só voltam a florescer no princípio dos anos 50. Um dos marcos da cidade nesse período é o famoso e extinto Cine Niterói. Obra do empresário Yoshikazu Tanaka, era um prédio de cinco andares na Galvão Bueno. Apesar de ter passado para história como um cinema, era muito mais do que isso. Tratava-se de um complexo de diversões, que concentrava salão de festa, restaurante, hotel e uma grande sala de projeção no andar térreo, para 1.500 espectadores. Veio abaixo por causa da construção da Via Leste-Oeste. Até o final da década de 50,
pratos com peixe cru eram raros nos restaurantes da Liberdade. Conservas,
pratos quentes e grelhados dominavam os cardápios. Era possível
saborear um tempura, que poderia ser feito de legumes e pescados empanados
e fritos. Por que escolhi começar exemplificando com o tempura?
Porque esta fritura foi uma influência portuguesa no Japão,
ainda no século 16, uma das raras influências ocidentais
que a fechadíssima sociedade japonesa sofreu. Apesar de já
conhecer o óleo de soja, nunca o usava para frituras. Foram os
portugueses que apresentaram o azeite aos japoneses. E certamente, o
tempura une Brasil e Japão de alguma forma. |
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