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Sincretismo e tolerância
Texto de Rona Alves Pereira (*)
O Xintoísmo (Shintô) e o Budismo (Bukkyô) são
os principais protagonistas do cenário religioso japonês.
Porém, séculos antes dessas tradições religiosas
tomarem corpo no arquipélago, inúmeras manifestações
do sagrado já se faziam presentes -- achados arqueológicos
(como clavas de pedra e figuras de barro) sugerem ritos de fertilidade
e práticas mágicas; com a introdução da
rizicultura surgem as cerimônias religiosas ligadas a cada aspecto
do cultivo do arroz; escritos chineses antigos falam de práticas
xamânicas, mediúnicas e adivinhatórias entre os
japoneses do começo da era cristã.
Até o século VI, as crenças autóctones não
se encontravam organizadas teologicamente ou centralizadas numa única
instituição. Nessa época, em que fora introduzido
oficialmente o Budismo no Japão, via Coréia, sacerdotes
ligados à corte começaram a organizar as crenças
nativas, para distinguí-las do ensinamento budista, sob as denominações
alternativas Shintô, Kami-no-michi ou ainda Kannagara-no-michi
(shin/kami/kan, “deus”, “espírito”; tô/dô/michi,
“via”, “caminho”). Se, por um lado, a tradição
proto-xintoísta, para sobreviver ao impacto da introdução
do Budismo, teve de organizar-se tomando emprestado da religião
importada termos, doutrinas, iconografia etc; por outro, o Budismo,
sendo uma religião originária da Índia, também
teve de “japonizar-se” e fazer empréstimos da tradição
religiosa dos japoneses para conquistar seus corações.
Essas duas tradições religiosas mantiveram uma duradoura
e frutífera relação simbiótica ao longo
dos séculos e desenvolveram uma espécie de divisão
de trabalho, particularmente no que tange a ritos de passagem. Enquanto
o Xintoísmo se relaciona mais freqüentemente com ritos de
nascimento, matrimônio, inauguração de edifícios
etc, o Budismo mantém-se na esfera do culto aos antepassados
e rituais fúnebres.
Além do Budismo, cumpre ainda citar o papel do Confucionismo
(Jukyô), do Taoísmo(Dôkyô) e do Cristianismo
(Kirisutokyô) no mosaico da religiosidade nipônica. O Taoísmo,
ensinamento de origem chinesa que enfatiza práticas místicas
e a ordenação do Universo, foi adotado oficialmente no
Japão no ano 702, como Repartição Governamental
de Adivinhação (Onmyôryô). O Confucionismo,
escola filosófica chinesa que enfatiza a ação social
e a ordem política, tornou-se o fundamento moral e ideológico
da elite governante no período Tokugawa (1600-1868). Embora ambos
não tenham-se tornado religiões formais no Japão,
as práticas adivinhatórias e certos conceitos taoístas
foram perpetuados na religiosidade popular, enquanto a ética
confucionista passou a reger as relações sociais e influenciou
praticamente todas as religiões no Japão. O Cristianismo
foi introduzido no país em 1549 por São Francisco Xavier
e obteve ampla aceitação no primeiro século de
prosetilismo cristão. No entanto, ele ficou proibido de 1639
até o final do século 19, e não se tornou uma religião
“naturalizada” como foi o caso do Budismo.
Essas tradições religiosas não ficaram separadas,
diferenciadas ou livres de influência recíproca na história
multi-milenar do país, resultando numa cultura onde a afiliação
exclusiva a determinada religião é uma exceção,
e onde o sincretismo é uma constante. De fato, o Japão
é um dos raros países no mundo onde as pessoas veneram
divindades de religiões diferentes sem maiores constrangimentos;
onde há capelas de uma religião no espaço sagrado
de outra; ou um sacerdote de uma religião conduza cerimônias
em outra religião.
Tal atitude flexível e pragmática frente à religião
pode ser creditada como um dos elementos que facilitou, por um lado,
a integração dos imigrantes japoneses no universo religioso
brasileiro; por outro, a difusão das religiões japonesas
fora da colônia nikkei.
(*) Ronan Alves Pereira, Ph.D. Professor
de cultura e língua japonesas na Universidade de Brasília.
Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade de Tóquio e doutor
em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Atualmente é pesquisador-visitante do Centro
de Estudos Japoneses da Universidade da Califórnia em Berkeley.
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