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religiosidade japonesa
no brasil
Texto de Rona Alves Pereira (*)
O imigrante japonês, como não podia
deixar de ser, também trouxe consigo as mais diversas orientações
religiosas. No princípio, embora houvesse garantias legais à
liberdade de culto no Brasil, a propagação das religiões
nipônicas foi inibida pelas autoridades japonesas -- pretendendo
evitar com isso que o imigrante fosse vítima de repúdio
e hostilidade -- e pelo meio brasileiro sob a hegemonia católica.
O período inicial da imigração registrou a presença
de membros e missionários de vários grupos religiosos,
porém, o trabalho proselitista destes era muito limitado. Aos
poucos esses grupos foram-se organizando e difundindo dentro e fora
da “colônia japonesa”. Atualmente, estima-se que haja
em torno de 60 grupos xintoístas, budistas e outros, o que faz
do Brasil o país com a maior expansão das religiões
japonesas fora do Japão. Cumpre notar que há confrarias
religiosas e grupos ético-morais não organizados formalmente
como religiões, além de religiões cristãs
com trabalho missionário voltado especificamente para a comunidade
nipo-brasileira. E ainda: alguns grupos foram criados no Brasil por
japoneses ou nisseis, homens e mulheres, dotados de poderes mediúnicos;
a maioria destes é tendencialmente xintoísta, mas não
deixa de incorporar diversos elementos do universo religioso brasileiro
(principalmente católicos, espíritas e umbandistas).
O Xintoísmo tradicional no Brasil tende a se manter uma religião
“étnica” e, portanto, confinada à colônia
nikkei. O Budismo tradicional também reproduz aqui, como no Japão,
seu papel histórico de prestador de serviços fúnebres,
centrado na família do imigrante. Na medida em que a colônia
era um espaço claramente delimitado e apartado da sociedade nacional,
com suas escolas de japonês reprodutoras dos valores ético-religiosos
do Japão imperial, o Xintoísmo e o Budismo eram perpetuados
por meio de funções e espaços simultaneamente complementares
e diferentes. Entretanto, a grande maioria das colônias ou foi
incorporada a cidades em contínua expansão, ou chegou
a dar origem a novas cidades (como ocorreu freqüentemente nos estados
de São Paulo e Paraná), ou simplesmente entrou em decadência
e/ou desapareceu. Além disso, como se não bastasse a enorme
pressão “cristianizadora” sobre os nikkei, ainda
houve e há a competição crescente das novas religiões
japonesas. Em todos esses casos, o Xintoísmo perdeu espaço.
O Budismo tradicional tem sobrevivido de maneira razoável, com
poucas exceções de sucesso, como é o caso da Terra
Pura e do Zen.
Assim, pode-se afirmar sem sombra de dúvida que os movimentos
ético-religiosos de origem nipônica mais bem sucedidos
no Brasil pertencem à categoria das “novas religiões”,
as quais possuem a maioria de adeptos sem ascendência japonesa
e reúnem algumas características comuns como: a ênfase
na força do pensamento positivo e na auto-confiança; milagres
e curas com base na fé e/ou no nível de dedicação
às diretivas do grupo; estímulo às reuniões
de pequenos grupos, que combinam aconselhamento, troca de experiências,
testemunhos de fé, estudo da doutrina e lazer; uma ética
ou orientações para o cotidiano; culto aos antepassados.
O sucesso dessas religiões tem-se refletido no Censo brasileiro,
que vem incluindo a categoria “religiões orientais”
nas últimas amostragens. Em 1991, apenas a Igreja Messiânica
e a Seicho-no-ie tinham fiéis auto-declarados no Censo. Em 2000,
no entanto, subiu para cinco o número de religiões japonesas
discriminadas (Messiânica, Seicho-no-ie, Perfect Liberty, Tenrikyo
e Mahikari).
Embora o Censo mencione apenas uma pequena parte da variada gama de
religiões japonesas no Brasil, os dados disponíveis permitem
a indicação de certas tendências no desenvolvimento
delas. Os grupos tradicionais tendem a se enfraquecer ou mesmo a desaparecer
na medida em que o fluxo migratório japonês para o Brasil
é hoje insignificante e as primeiras gerações de
imigrantes estejam desaparecendo. As organizações mais
bem-sucedidas, sobretudo aquelas pertencentes à categoria das
“novas religiões”, estão-se espalhando principalmente
fora da comunidade nipo-brasileira, no meio urbano, por todo o território
nacional. Elas crescem especialmente entre a classe média e pessoas
com escolaridade básica.
Como se pode constatar na lista das religiões japonesas abaixo,
a esmagadora maioria possui a sede na capital paulista ou em cidades
vizinhas, como Suzano, Arujá, Moji das Cruzes, Diadema e outras.
Esse dado é coerente com a grande concentração
da comunidade nipo-brasileira no estado de São Paulo, que possui
70,8% do total estimado dos descendentes de japoneses residentes no
Brasil.
Por fim, as religiões japonesas são classificadas pelo
governo japonês como xintoístas, budistas, neo-xintoístas,
neo-budistas e “outras”. Essa última categoria inclui
religiões ecléticas ou que não aceitam a classificação
oficial. Seguimos a orientação do governo japonês
na relação dos grupos religiosos a seguir.
(*) Ronan Alves Pereira, Ph.D. Professor
de cultura e língua japonesas na Universidade de Brasília.
Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade de Tóquio e doutor
em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Atualmente é pesquisador-visitante do Centro
de Estudos Japoneses da Universidade da Califórnia em Berkeley.
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