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Panorama dos "Estudos Japoneses" no Brasil

Alexandre Ratsuo Uehara 1

O senso realizado pelo escritório da Fundação Japão de São Paulo confirma que o Brasil detém o maior contingente de pesquisadores de "Estudos Japoneses" na América Latina e também que essa área de pesquisa está em expansão no Brasil. Comparando-se os dados da última pesquisa divulgada em 1998, o crescimento foi de cerca de 39%, passando de 95 para 132 pesquisadores acadêmicos ativos.

Esse crescimento é importante e muito positivo, pois consolida uma base de pesquisadores e multiplica o potencial de expansão, pois o trabalho de pesquisa acadêmica depende fortemente de professores que possam estimular e orientar novos alunos nos "Estudos Japoneses". Portanto, o registro de 75 pessoas entre doutores (58), pós-doutores e livre-docentes nesta pesquisa é um elemento importante, na medida em que fortalece a capacidade de multiplicação de pesquisadores em "Estudos Japoneses" no Brasil.

Outro dado positivo é a diversificação de temas da produção acadêmica em "Estudos Japoneses" no Brasil. Há desequilíbrios, por exemplo, as pesquisas em ciência política, direito, economia, filosofia e psicologia são desenvolvidas, ainda, por um número pequeno de pesquisadores. Contudo, o fato dos trabalhos acadêmicos estarem sendo desenvolvidos em diferentes áreas de conhecimento, contribui para uma produção ampla e diversificada que serve de apoio à consulta, ao intercâmbio, ao debate de informações e idéias.

A diversificação chama atenção também pelo número de pesquisadores não descendentes de japoneses, que chega a cerca de 31%, ou seja, só esse grupo já é superior aos 38 pesquisadores registrados vinte anos atrás na pesquisa de 1988, significando mais um sinal de consolidação da base de "Estudos Japoneses" no Brasil. O envolvimento crescente de não descendentes de japoneses nos "Estudos Japoneses" é um fato importante, pois demonstra que é uma área de pesquisa aberta a todos que a ela quiser se dedicar e amplia a possibilidade de envolvimento de novos pesquisadores.

O caminho até essa realidade foi longo e a seguir, mostrar-se-á um breve panorama histórico das relações nipo-brasileiras e do desenvolvimento dos "Estudos Japoneses" no país.

Os "Estudos Japoneses" na história das relações nipo-brasileiras

O início do relacionamento nipo-brasileiro se dá na segunda metade do século XIX, após um período de cerca de 220 anos de isolamento do Japão (Sakoku Jidai), que terminou em 1853, e a reativação das relações internacionais japonesas decorrentes da Restauração Meiji em 1867.

O Japão procurando atualizar seu desenvolvimento econômico, social e tecnológico, buscou ampliar a abrangência das relações com outros países, ultrapassando os limites da Ásia. A expansão dos interesses nipônicos trouxe ao território brasileiro o comissário Sho Nemoto do Ministério das Relações Exteriores do Japão, que visitou alguns Estados do país, como Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo, em 1893 (Nakasumi & Yamashiro, 1992). O comissário ficou impressionado com a situação brasileira, favorecendo a aproximação entre os dois países.

Desde então, a história das relações nipo-brasileiras oscila momentos de maior e menor intensidade, podendo ser dividida em cinco períodos:

  • período da imigração (1895-1945), iniciado com a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação em 1895, até a Segunda Guerra Mundial;
  • período dos investimentos (1950-1980), depois dos imigrantes foi a vez das empresas japonesas virem ao Brasil;
  • período da crise econômica brasileira (década de 1980), quando há mudanças nas estratégias das empresas japonesas e o interesse econômico sobre o Brasil diminui;
  • período da crise econômica no Japão (década de 1990), que faz com que as relações entre os dois países se mantenham tímidas;
  • período do século XXI, momento contemporâneo, em que as economias de ambos os países apresentam sinais positivos de retomada de crescimento e criam perspectivas de revitalização das relações bilaterais.

A história dos "Estudos Japoneses" se insere nesse panorama geral, iniciando-se já na primeira fase do relacionamento nipo-brasileiro, pois apesar dos primeiros registros de produções em língua portuguesa serem somente de 1940, segundo Suzuki (1998) já havia algumas produções anteriores a esse ano em japonês.

No período da imigração esses trabalhos eram compilados por imigrantes e, por isso, nem sempre tinham um perfil acadêmico. "São trabalhos pioneiros que nasceram de uma árdua, mas gratificante dedicação de desbravamento de coisas novas, pelas mãos de apaixonados pela cultura japonesa de um modo geral e que buscavam divulgá-la no meio brasileiro" (SUZUKI, 1998, p.26).

A segunda fase começa após a entrada em vigor do Tratado de São Francisco, em 1952, que restabeleceu a soberania ao Japão permitindo a retomada das relações entre os dois países. Nesta segunda etapa os fatores econômicos adquirem maior importância, estimulados pelo crescimento da economia japonesa e aumento dos empreendimentos japoneses no Brasil.

Os "Estudos Japoneses" começam a ter as primeiras produções acadêmicas nesse período, apoiados pelo fato de pessoas da colônia japonesa de segunda geração que já haviam conquistado uma formação universitária. Nessa segunda fase inicia-se também a diversificação dos "Estudos Japoneses" no Brasil, particularmente a partir dos anos 1970, com o desenvolvimento de pesquisas em temas econômicos, de administração, direito e antropologia, estimulados pela admiração e interesse sobre a projeção econômica do Japão no contexto internacional, que durou até o final dos anos 1980 e início dos anos 1990.

No Quadro I comparam-se as fases de relacionamento nipo-brasileiro com os dados apresentados por Tae Suzuki (1998) sobre a história do desenvolvimento dos "Estudos Japoneses" no país.

QUADRO I
Histórico do Relacionamento Nipo-Brasileiro e dos "Estudos Japoneses" no Brasil

Relacionamento Bilateral Estudos Japoneses
1. Imigração, da assinatura do Tratado de Amizade até a Segunda Guerra Mundial (1895-1945) a. Primeiras iniciativas nos campos das pesquisas sobre o Japão (1940-1950) Concentração de estudos em sociologia e história
2. Grandes investimentos japoneses (1950-1980) b. Surgimento das pesquisas eminentemente acadêmicas (anos 1960) e criação de cursos de japonês nas universidades.
Enriquecimento e alargamento dos "Estudos Japoneses" no Brasil a partir dos anos 1970 (economia, administração, direito, antropologia)
3. Crise econômica brasileira (década de 1980)   Período de impulso nos "Estudos Japoneses", no qual o desempenho econômico japonês atrai atenção de pesquisadores
4. Crise econômica no Japão (década de 1990) c. Renovação de pesquisadores e ampliação de áreas de estudos sobre o Japão
5. Século XXI, economias do Brasil e do Japão em crescimento d. Fortalecimento do potencial de crescimento dos "Estudos Japoneses" no Brasil

Analisando-se o Quadro I percebe-se uma certa correlação entre o desempenho econômico do Japão e o início do impulso aos "Estudos Japoneses" no Brasil. A partir da década de 1970 no segundo período, à medida que a projeção econômica internacional do Japão se ampliou, cresceu também o interesse pelas pesquisas sobre esse país no Brasil. Esse fato se percebe pela diversificação de temas estudados e crescimento do número de pesquisadores não (nikkeis) descendentes de japoneses.

Na década de 1990 as relações econômicas nipo-brasileiras passaram por um período de estagnação, mas esse fato não interrompeu o crescimento do número de pesquisadores, que passaram de apenas 38 pesquisadores acadêmicos em 1988 para 95 no censo de 1998, chegando até os números atuais. Isso demonstra que se o início das pesquisas foram de algum modo impulsionadas pelo desempenho econômico japonês, nestes últimos anos as motivações são diferenciadas.

Considerações Finais

As expectativas por uma multiplicação de pesquisadores sobre os "Estudos Japoneses" no Brasil são grandes em razão dos argumentos apresentados anteriormente, como professores capazes de estimular e orientar novas pesquisas e pessoas e o envolvimento de pesquisadores não descendentes de japoneses. E, paralelamente à ampliação do número de pesquisadores, é de se esperar que haja uma redefinição da identidade dos "Estudos Japoneses" no Brasil.

Até o final do século XX o desenvolvimento dos "Estudos Japoneses" no Brasil era relacionado à numerosa comunidade no país, estimada em cerca de 1,3 milhão de imigrantes e descendentes de japoneses. Todavia, pelo menos dois elementos – a cultura e a língua - indicam que o futuro dessa área de pesquisa no Brasil não poderá mais depender das motivações dos pioneiros dos "Estudos Japoneses" no Brasil.

Dados empíricos apontam que os "Estudos Japoneses" foram desenvolvidos nos primórdios, pelo interesse dos imigrantes e descendentes japoneses no Brasil pela cultura, história e outros aspectos sociais de seus antepassados. Contudo, os descendentes de japoneses estão, cada vez mais, sendo assimilados e assimilando a cultura brasileira, assemelhando os seus interesses pelo Japão ao dos não descendentes. Portanto, os laços afetivos que foram importantes para impulsionar os "Estudos Japoneses" no Brasil durante boa parte do século XX se mostram insuficientes para a formação de pesquisas e pesquisadores sobre nessa área no século XXI.

O segundo elemento importante é a diminuição do número de pessoas que dominam desde a infância a língua japonesa no país. O distanciamento das novas gerações em relação aos imigrantes e a assimilação cultural dos descendentes vêm eliminando esse fator que era apontado anteriormente como uma vantagem. A cada nova geração o número de pessoas que necessitam dedicar-se ao estudo da língua japonesa aumenta, aproximando a realidade brasileira dos "Estudos Japoneses" a de outros países.

Esses fatores podem ser vistos como positivos, pois permitirão a constituição de uma nova identidade dos "Estudos Japoneses" no Brasil, que deverá ser mais estável, baseada não apenas na presença de uma grande comunidade de descendentes de japoneses no país mas pelos interesses crescentes dos pesquisadores sobre Japão. Um exemplo concreto da repercussão do desenvolvimento do interesse é o do México, que contava com 41 pesquisadores em 2006 apesar da população de imigrantes e descendentes girar em torno de 12 mil 2 pessoas. Esse é um resultado muito significativo se comparando com os 132 pesquisadores no Brasil para uma comunidade de cerca de 1,3 milhão de imigrantes e descendentes.

Portanto, os resultados apresentados neste ultimo senso tem um significado importante, ao apontar a presença de uma importante base multiplicadora, que deverá contribuir para o crescimento do número de pesquisadores e para a continuidade da redefinição da identidade dos "Estudos Japoneses" no Brasil, motivada por profundos e renovados interesses.

BIBLIOGRAFIA

NAKASUMI, Tetsuo & YAMASHIRO, José. "Fim da Imigração e Consolidação da Nova Colônia Nikkei." pp.381-458. In: Uma Epopéia Moderna: 80 Anos Da Imigração Japonesa no Brasil. (Comissão de Elaboração da História dos 80 Anos da Imigração Japonesa no Brasil). São Paulo: Hucitec/Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, 1992. 604p.

Suzuki, Tae. "Os Estudos Japoneses no Brasil – Um breve panorama". In: Anais do Simpósio de Estudos Japoneses no Brasil. Fundação Japão: São Paulo, 1999.

1 Presidente da Associação Brasileira de Estudos Japoneses (ABEJ) e Professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco em São Paulo, Brasil.

2 Agencia de Cooperación Internacional del Japón. Informe de la Evaluación por País – México. Octubre , 1999. Disponível em: http://www.jica.go.jp/english/evaluation/report/pdf/2000_76_1.pdf

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